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Home Crônicas Paulo Camargo

Uma outra quadrilha

porPaulo Camargo
27 de outubro de 2015
em Paulo Camargo
A A
"Uma outra quadrilha", crônica de Paulo Camargo

Imagem: Melvin Quaresma.

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Muitos devem conhecer um poema de Carlos Drummond de Andrade intitulado “Quadrilha”. Como se enumerasse os participantes de uma dança típica de festas juninas, o escritor os conecta por afetos desenganados. Um sempre ama o outro, mas a recíproca nunca é verdadeira, em um perverso moto-contínuo de engates equivocados que, por fim, desembocam no vazio mais completo. É uma ciranda de queixumes e corações partidos.

Sabemos, pelos versos, que “João amava Tereza que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”. Descobrimos, lá na última estrofe, que esta última, talvez sem tempo, ou mesmo vontade de esticar seu olhar para ninguém no arraial, terminou casada, anos mais tarde, com um certo J. Pinto Fernandes. Este sequer havia entrado na dança ou na história. “Sorte dela!”, diriam os mais céticos em relação a assuntos amorosos.

Na vida real, não estamos a dançar ao redor de uma imensa fogueira, concentrados em uma elaborada coreografia, mas, como nos versos do poeta mineiro, estamos sempre a girar como se fôssemos piões, disfarçando nossas cores originais por conta da velocidade com que rodamos pelo espaço dos dias. Ninguém as vê com precisão. Melhor assim: como diz Caetano, outro poeta, esse de sotaque baiano, de perto ninguém é mesmo muito normal.

Triste, mas inevitável, é constatar que, na maioria das vezes, o tom da música é ditado por algo natural, mas não menos cruel, chamado desequilíbrio de afetos.

O que sei desse nada sei de mãos que se entrelaçam para depois se largarem, em um sobe e desce de braços, e pés que batem no chão ao som da sanfona, é que se existe mistério cabuloso nessa existência, é esse jogo de bem-me-quer. Nele, a última pétala arrancada da flor traz consigo uma resposta muitas vezes enganadora. Nada é tão simples  quanto um “felizes para sempre”.

Triste, mas inevitável, é constatar que, na maioria das vezes, o tom da música é ditado por algo natural, mas não menos cruel, chamado desequilíbrio de afetos.

Tereza até poderia aprender a amar João com o tempo, mas não teve paciência para conhecê-lo melhor, e acabou esnobada por Raimundo, para quem o bem-querer da moça não valia mais do que um quentão morno, abandonado sobre a mesa do festerê. Preferiu insistir em Maria, que o usou para provocar ciúme em Joaquim, um gajo português que só tinha olhos para Lili. Ela, alheia a tudo, menos à música alegre, dançou feliz e sozinha a noite toda.

Preferiu que o acaso a surpreendesse.


Ensaio fotográfico do jornalista e fotógrafo Melvin Quaresma (www.melvinquaresma.com).

Tags: afetosAmorCaetano VelosoCarlos Drummond de AndradeCrônicafesta juninaquadrilha

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