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‘Dias úteis’: uma viagem ao absurdo particular de Patrícia Portela

Em 'Dias úteis', novela singular, escritora portuguesa Patrícia Portela explora o insólito e o magnífico do cotidiano.

porJonatan Silva
15 de maio de 2020
em Literatura
A A
Escritora Patrícia Portela

Escritora Patrícia Portela. Imagem: Reprodução.

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Não existe algo de mais misterioso e assombroso na vida de uma pessoa comum do que o cotidiano. Balzac (1799 – 1850) dedicou boa parte da sua obra à investigação dos lugares-comuns e das sutilezas escondidas sobre o verniz social. Esses “estudos”, por assim dizer, desembocaram na coleção A Comédia humana, que inclui alguns de seus livros mais importantes, como O Pai Goriot, Ilusões perdidas e A Mulher de trinta anos.

Na novela Dias úteis, a escritor portuguesa Patrícia Portela busca, a partir das mesmas indagações de Balzac, e de maneira muito mais concisa, a chave para entender tudo aquilo que há de mais mundano e habitual. Os capítulos – ou contos – que dão corpo ao livro são pequenos olhares íntimos para a banalidade, um inquérito sobre tudo que, de tão comum, se torna invisível.

Nessas pequenas performances literária, a escritora se debruça sobre a inexistente razão de ser e estar nesse comum, como se viver fosse, desde o primeiro instante, a confirmação de que, mais cedo ou mais tarde, tudo acaba. Se de um lado há a letargia que a impede de trocar de canal, de outro a necessidade de correr, de buscar qualquer coisa que se faz prioridade. É como se as palavras fossem também corpo e possuíssem um espírito capaz de fotografar – do alto – esse mesmo corpo.

É a partir do que já está dado – daquilo que já está construído e consolidado – que a autora refaz todo o itinerário para a interpretação e releitura do cotidiano e do mundo.

Como a casa de espelhos em Nós, o longa de Jordan Peele, Dias úteis explora o fantástico do absurdo, a mesma estratégia que havia usado no enigmático A Coleção privada de Acácio Nobre, sem dispor de qualquer verdade absoluta para essa equação labiríntica, mas cuja resposta está, na realidade, em quem lê. As pistas se seguem uma a uma, dispostas de maneira abstrata pela narrativa, que ganha o reforço das epígrafes que povoam o livro – e que são elementos importantes para contar a história. Ainda que chamar de história seja enquadrar todo o processo, algo que passa ao largo da literatura de Patrícia Portela.

Ready-made

Como Gonçalo M. Tavares, outro português, ou o brasileiro Reginaldo Pujol Filho, o fazer literário de Patrícia prescinde de qualquer laço que feche o pacote, mas existe, claro, uma forte conexão com os ready-made de Duchamp – elemento também bastante perceptível na obra de Sérgio Sant’Anna. É a partir do que já está dado – daquilo que já está construído e consolidado – que a autora refaz todo o itinerário para a interpretação e releitura do cotidiano e do mundo.

Nessa perseguição por sentido, Dias úteis revela que, como diria Renato Russo, “o maior segredo é não haver mistério algum”, entretanto, é diante desse aparente vazio que se torna possível erguer ou destruir muros. Com Dias úteis, Patrícia Portela investiga a multidão e a solidão, banal e o supremo, sem colocar peso sobre os papeis, mas oferecendo uma experiência única de leitura, abstração e construção mútua de realidade.

DIAS ÚTEIS | Patrícia Portela

Editora: Dublinense;
Tamanho: 96 págs.;
Lançamento: Agosto, 2019.

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Tags: A coleção privada de Acácio NobreA Comédia humanaA Mulher de trinta anosBook ReviewCríticaDias úteisDublinenseGonçalo M. TavaresHonoré de BalzacIlusões perdidasJordan PeeleLiteraturaLiteratura PortuguesaO Pai GoriotPatrícia PortelaReginaldo Pujol FilhoRenato RussoResenhaSérgio Sant’Anna

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