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‘Contos da Tartaruga Dourada’: Kim Si-seup propaga Confúcio

'Contos da Tartaruga Dourada', de Kim Si-seup, justificam a hierarquia social na Coréia.

porMarilia Kubota
22 de agosto de 2017
em Literatura
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'Contos da Tartaruga Dourada': Kim Si-seup propaga Confúcio

Imagem: Reprodução.

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Contos da Tartaruga Dourada, de Kim Si-seup, (tradução de Yun Jung Im, Estação Liberdade, 2017) é uma coletânea com cinco contos, escritos no século 15, na transição entre duas escolas de pensamento asiático, o budismo e o confucionismo. Em todas as narrativas há inserção de poemas e os protagonistas visitam o mundo dos mortos, numa alusão a que tais escritos têm origem em histórias arcaicas.

Kim Si-seup viveu a transformação do domínio da dinastia Goryeo, o Reino da Alta Beleza (918–1392), para a dinastia Joseon, o Reino das Manhãs Calmas (1392–1897). A mudança de dinastias foi o fim de quase mil anos de domínio budista, estabelecendo um Estado neoconfucionista. Através das narrativas, o autor defende os valores da filosofia clássica chinesa.

No primeiro conto, “Um jogo de varetas no Templo das Mil Fortunas”, por exemplo, a bela moça que encanta o protagonista comenta a fuga de um ataque de piratas japoneses. “Com esse corpo frágil feito um salgueiro de riacho, eu não podia ir longe e por isso me escondi no fundo do quarto das mulheres. Ali, mantive a minha pureza até o fim. Esquivei-me da desgraça preservando a minha conduta limpa. Quando voltaram, meus pais ficaram orgulhosos da filha que guarda a pureza e me despacharam para um refúgio distante, para que eu vivesse escondida por um tempo. E isto já faz três anos.” (página 20) Embora ela se esforce para preservar a virtude feminina diante do inimigo, mais adiante, o protagonista a seduz e ela se entrega, sem culpa.

Em “Yi espreita por cima da mureta”, o casal romântico retorna e a sedução se repete. A moça justifica-se aos pais: “Matutando comigo mesma, entendi que o sentimento de amor entre um homem e uma mulher é um caminho natural do ser humano, um acontecimento deveras importante. Talvez seja por isso que haja um poema no Livro das Odes alertando para que não se perca a hora propícia para o casamento, a exemplo de uma ameixa que cai quando atinge a plenitude. Mas O Livro das Mutações também diz ser algo nefasto a mulher não resguardar sua castidade.

Com este corpo delgado e vacilantes feito um ramo de salgueiro não pude cumprir a lição de que uma moça deve casar antes de murcharem as folhas da amoreira branca, e acabei molhando minha roupa no orvalho da rua. Agora estou prestes a ser zombada pelos vizinhos.Acabei cedendo aos atos que me foram alertados, assim como uma videira se escora em outra árvore sem conseguir se sustentar sozinha. Meu pecado transborda e estou a causar estorvos à família.” (página 65). Os amantes acabam se casando. O homem se revela covarde, quando foge e a mulher é morta num ataque de piratas japoneses. Neste conto, como é usual nas narrativas do Leste Asiático, a entidade fantasmagórica é feminina.

Infere-se que as narrativas compiladas por Kim Si-seup eram repassadas por transmissão oral e funcionavam para atribuírem autoridade moral aos governantes.

No conto “Visita à Terra Flutuante das Chamas do Sul”, o protagonista, um estudante de filosofia, critica o budismo, ritual que se tornou fútil em sua época:  “No mundo, depois que os pais morrem, não se realizam mais cerimônias fúnebres e de condolência após completar 49 dias. A partir de então, concentram-se em oferendas, tanto aqueles de posição elevada quanto os inferiores.

Um rico abusa de seu dinheiro e incomoda o ouvido das pessoas, enquanto os pobres chegam a vender plantações e casas, ou ainda tomam emprestado dinheiro e grãos. […]Não se pode encontrar neles nenhuma filosofia propriamente dita. O primogênito do falecido traz esposas e filhos, e convidam os amigos, de modo que na reunião se misturam homens e mulheres, o terreno sagrado do templo se torna  uma latrina a céu aberto, coberto de cocô e xixi, e o lugar sagrado onde o Buda recebeu a iluminação se torna numa feira barulhenta.” (Página 120)

O estudante de filosofia discute com o rei dos infernos, que defende o confucionismo: “Quando se nasce, o céu atribui o sexo da pessoa, a terra nutre com a vida, o rei governa pela lei, o mestre a ensina pela correção e os pais, o criam com dádivas. Com base nisso, é que temos uma hierarquia nas virtudes, e ditames morais das cinco relações humanas fundamentais confucionistas, ou seja, a benevolência na relação governante-súdito, a retidão na relação pai-filho, a propriedade na relação irmão-irmão. A sabedoria na relação marido-esposa e a lealdade na relação amigo-amigo. É também daí que damos um ordenamento nos três princípios básicos que regem a doutrina confuciana, que são do governante para o súdito, do pai para com o filho e do marido para com a esposa.” (Página 121)

A filosofia confuciana sustenta que se tal hierarquia for rompida, catástrofes se sucederão. A relação entre a ruptura da hierarquia social e catástrofes se sustentou por séculos em países asiáticos dominados pela cultura chinesa. Pelo seu conteúdo, infere-se que as narrativas compiladas por Kim Si-seup eram repassadas por transmissão oral e funcionavam para atribuírem autoridade moral aos governantes. Não parece difícil concluir que a elite política usava as narrativas de fundo religioso como forma de controle social da população.

CONTOS DA TARTARUGA DOURADA | Kim Si-seup

Editora: Estação Liberdade;
Tradução: Yun Jung Im;
Tamanho: 176 págs.;
Lançamento: Junho, 2017.

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Tags: confúcioContos da Tartaruga DouradaCrítica LiteráriaEstação LiberdadeKim si-SeupLiteraturaLiteratura CoreananeoconfucionismoResenhaYun Jung Im

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