Em Uma delicada coleção de ausências, Aline Bei retorna ao território que tornou sua obra reconhecível: as frestas da intimidade, os vínculos frágeis entre mulheres e a memória como força que persiste mesmo quando todo o resto se desfaz. Desta vez, no entanto, a autora aposta numa narrativa mais ampla, com ambição de abarcar três gerações — Margarida, sua filha Glória e a neta Laura — e, ao fazê-lo, produz um romance que alterna momentos de grande delicadeza com passagens menos resolvidas, em que a linguagem parece se adiantar à própria história.
O livro acompanha Margarida em duas temporalidades: a juventude no circo, onde trabalhou como assistente do mágico Oberon e viveu um amor intenso com um palhaço cigano, e o presente em Belva, cidade onde cria a neta Laura. Entre um tempo e outro, inscreve-se a ausência de Glória, filha que partiu ainda jovem e cuja falta organiza a vida familiar como um imã invertido, atraindo e afastando afetos. Bei estrutura essa ausência como força narrativa, não como mistério a ser solucionado: mais que descobrir para onde Glória foi, interessa entender como o campo emocional deixado por ela molda as outras duas personagens.
Os trechos que revisitamos o circo são os mais vigorosos. Ali, Bei encontra uma síntese rara entre fabulação e violência, lirismo e brutalidade. A juventude de Margarida ganha contornos quase míticos, sustentada por imagens que parecem brotar do próprio picadeiro — fumaça, lâminas, cordas, corpos suspensos. É nesse cenário que a autora alcança sua escrita mais precisa: forte sem ser ornamental, poética sem se perder de sua função narrativa.

Quando a trama se desloca para Belva, Uma delicada coleção de ausências busca outro tipo de intensidade, mais doméstica, mais cotidiana. A relação entre Margarida e Laura carrega um tipo de ternura que não exclui o desconforto: a neta que cresce rápido demais, a avó que teme perdê-la, os rituais da casa que tentam compensar a mãe faltante. Aline Bei é particularmente hábil em captar a passagem da infância para a adolescência, o corpo que se transforma, a culpa, a curiosidade, a fragilidade diante do mundo — tudo isso com um olhar que evita simplificações.
Há, porém, uma irregularidade que atravessa Uma delicada coleção de ausências. A linguagem excessivamente imagética, marca estético-poética da autora, às vezes se impõe sobre a progressão da história. Trechos longos se sustentam mais pela metáfora que pela necessidade dramática, retardando o acesso ao núcleo emocional da narrativa. Platitudes ocasionais e escolhas simbólicas reiteradas acabam diluindo a força de passagens que, por si, já contêm densidade suficiente. O resultado é um romance que alterna potência e dispersão, como se procurasse manter um estado contínuo de epifania que o tecido narrativo nem sempre comporta.
A autora parece interessada precisamente nisso: naquilo que resta quando tudo o que deveria sustentar alguém não está mais lá.
Ainda assim, quando Bei encontra o fio certo — sobretudo na justaposição entre a memória de Margarida e o presente de Laura — o romance se ilumina. O que se vê é a tentativa de compreender a herança emocional transmitida entre mulheres, essa matéria feita de pequenos gestos, de medos acumulados e da difícil arte de permanecer apesar da falta. A autora parece interessada precisamente nisso: naquilo que resta quando tudo o que deveria sustentar alguém não está mais lá.
Uma delicada coleção de ausências é, portanto, um livro de contrastes. Há nele uma beleza frequentemente genuína, ainda que acompanhada por oscilações estruturais e estilísticas. É, talvez, o romance mais inconsistente de Aline Bei — justamente por tentar abarcar mais do que suas obras anteriores. Mas é também uma investigação sensível sobre como a ausência pode ser, paradoxalmente, a força que organiza vidas inteiras.
UMA DELICADA COLEÇÃO DE AUSÊNCIAS | Aline Bei
Editora: Companhia das Letras;
Tamanho: 288 págs.;
Lançamento: Junho, 2025.
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