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Cabaret Voltaire, um lugar onde reinventar o mundo

O Cabaret Voltaire, reduto dadaísta, sua história e importância servem enquanto exemplo de espaço de resistência e reinvenção artística aos dias atuais.

porBruno Zambelli
8 de dezembro de 2016
em Teatro
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cabaret voltaire

Primeira Feira Internacional Dadá, 1920. Foto: Reprodução.

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Um século é mais que cem anos, afinal, cem anos guardam segredos infinitos do ponto de vista do encanto, o que pode tornar um século em eternidade. Há uma fada verde recostada no ouvido da humanidade. A cabeça de um bebê alemão ainda perturba o sono da burguesia. Um clarim ecoa no fundo da alma. Dadá! Dadá! Dadá!

A vida sem pantufas, bruta, uma insatisfação perene. O deboche enquanto arma. A luta que se trava na taverna. O peso de um século sobre cabeças recém cortadas. O desbunde enquanto método!

No ano de 1916, em Zurique, Suíça, um grupo de artistas exilados se encontrou através do desassossego para dar vida a uma das mais inconsequentes e importantes iniciativas artísticas de que se tem conhecimento: o Cabaret Voltaire.

Fundado pelo diretor teatral e escritor Hugo Ball e sua companheira Emmy Hennings durante a Primeira Guerra Mundial, o cabaré literário logo se tornou refugio dos artistas exilados que procuravam na Suíça, mais propriamente em Zurique, um local onde pudessem sublimar aos horrores que reinavam naqueles anos através do exercício do delírio, como explicou Hans Arp: “Em Zurique, em 1915, quando perdemos o interesse nas carnificinas da guerra mundial, entregamo-nos às belas-artes. Enquanto ao longe troavam os canhões, nós cantávamos, pintávamos, colávamos e fazíamos poesia a mais não poder, pondo a alma inteira nisso”.

Naquela cidade refugio, onde desertores, exilados e artistas brindavam a vida com caneca de cerveja e lágrimas, nasceu o dadaísmo. Poesia, performance, sarau; prostitutas, universitários, bandidos e poetas. O Cabaret Voltaire foi, desde o início, uma saída contra o bom mocismo e o sossego, como deixa claro o chamamento feito em fevereiro em um jornal local: “… o Cabaret Voltaire exorta todos os jovens artistas de Zurique para que compareçam com sugestões e contribuições, sem se preocupar com esta ou aquela orientação artística”.

Não é preciso dizer que uma horda de artistas dispostos a desafiar as convenções e dinamitar as instituições apareceu prontamente ao espaço, de livros em punhos e versos a plenos pulmões. A partir deste chamamento, e da criação do Voltaire, Zurique passou a cuspir chamas e nunca mais foi a mesma. Não seria exagero dizer que, além da cidade, aqueles garotos mudaram os rumos do mundo e cravaram seus nomes, à base de dinamite, na história da arte.

Não seria exagero dizer que, além da cidade, aqueles garotos mudaram os rumos do mundo e cravaram seus nomes, à base de dinamite, na história da arte.

Quando o absurdo, o horror e o descontentamento tomam conta de nossa rotina, é sempre penoso mantermo-nos de pé, ainda mais quando sabemos perfeitamente que os tempos guardam aos artistas o desprezo de sempre, movidos ora pela violência, ora pela impossibilidade. O massacre diário provocado pelas diversas guerras travadas no mundo não dá trégua. Somos bombardeados por obrigações, somos soterrados pela razão e temos a esperança dinamitada pelo trunfo da maldade. Tempos sombrios costumam escurecer tudo, inclusive a nossa vontade de resistir, afinal, são em tempos como esse que percebemos que não há saída para a arte em nossa sociedade. A ela cabe apenas o fundamental papel de nos consolar diante da nossa eminente desgraça.

Um século reluz sobre nossas cabeças. A bendita herança encharcada de absinto e fundada através de um bombardeio estético paira no horizonte decapitado de nossas noites intermináveis. Quando os espaços tornam-se raros, a arte, dentre elas o teatro, precisa colocar o pé na rua, tomar todos os espaços e resistir cantando contra os horrores impostos.

Se o tempo demonstra que tanto o Cabaret Voltaire quanto os próprios dadaístas acabaram esgotados em si mesmo, não podemos negar que a força da ousadia, e a crença na inventividade poética, que transbordava na turma de Zurique, andam à míngua nos nossos monótonos dias.

Entre editais e prestações de contas, aprisionados por um sistema de migalhas, é preciso lembrar sempre das palavras de Tzara, endossada por todos os dadás, no Manifesto do Senhor Antipirina: ”a arte não é séria, eu lhes asseguro”.

Resta-nos, pois, ao menos uma boa gargalhada diante do carrasco!

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Tags: cabaret voltaireDadaísmohugo BallPerformancesarauTeatrotristan Tzara

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