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Cortem as cabeças de todos os reis, estejam eles no palco ou na vida

porBruno Zambelli
7 de abril de 2016
em Teatro
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Nem deus, nem pátria e nem patrão.

O famoso, e por muitas vezes desgastado, bordão anarquista é conhecido de todos nós. Impossível nunca ter esbarrado, seja em um muro ou em um livro, com as palavras inspiradoras de libertação e guerra que nos causam, inegavelmente, uma inquietação. O anarquismo carrega em si, da melhor maneira possível, a juventude que teimamos em guardar no armário de canto. Que me perdoe o mestre Nelson Rodrigues, mas certas correntes ideológicas, assim como suas palavras, servem para nos lembrar que não devemos envelhecer jamais. Os versos representam, em estado bruto, a insubmissão e a crença na liberdade absoluta, duas características imprescindíveis também ao teatro.

A arte do deus do vinho não aceita acordos e, principalmente, não se rende. O teatro é uma arte da resistência e, quando se trata de palco, estamos todos sujeitos aos acasos dionisíacos que governam esses lugares encantados, por isso nada, e nem ninguém, diante dessa grandiosidade,é intocável. Eis aí toda a beleza do teatro: estamos todos, sempre, no mesmo barco. Atores, público e toda pessoa envolvida no rito teatral entregam-se, queiram ou não, ao mistério absoluto.

Todo ator sabe que ao subir em um palco travamos uma batalha. É preciso morrer diariamente para renascer em personagens e histórias. Damos vida ao absurdo e somos a todo momento peitados, seja por fantasmas que nos assolam o viver ou por um público que nos julga e massacra em busca de sua dose violenta de entretenimento diária. O ator é um operário que insiste no ofício do sonho mas, infelizmente, poucos de nós tem se dado o direito de sonhar.

No sábado (19), a normalidade tomava conta de Belo Horizonte. O ar parado denunciava que a noite seria daquelas calmas, esquecíveis, que guardam em si toda monotonia de um dia comum. O espetáculo Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos acontecia normalmente quando o ator, diretor e produtor do espetáculo, Claudio Botelho, tomou uma decisão que marcaria para sempre, a partir daquele instante, a história do homem e do espetáculo. O ator, num misto de euforia e estupidez, chamou a Presidenta Dilma e o ex-Presidente Lula de ladrões, além de outros impropérios.

Antes que a histérica, e violenta, turba do “impítimá” venha, com seus patinhos, acusar-me de qualquer coisa, digo que a definição do ato de Botelho como estupidez nada tem a ver com lados a serem tomados nessa batalha cega. A estupidez vem da violência, do desrespeito. Ao agir através do ódio, que cega até os caça-níqueis mais gananciosos, o ator perdeu a crença no afeto, na beleza da construção da ideia através do diálogo. A resposta violenta diante de uma ameaça é até compreensível, a violência que brota da intolerância, nunca!

Ao agir através do ódio, que cega até os caça-níqueis mais gananciosos, o ator perdeu a crença no afeto, na beleza da construção da ideia através do diálogo.

Um áudio, gravado ilegalmente, diga-se, mostra a reação do ator no camarim ao conversar com uma colega. Num misto de soberba, burrice e histeria, o ator grita absurdos que não merecem serem reproduzidos por aqui, a fim de evitar engulhos aos leitores da modesta página. O resultado da vaidade do ator foi desastroso para o grupo: Chico retirou a autorização de uso de suas músicas e textos nos espetáculos e se disse espantado com a postura de Claudio, porém, ao que parece, o compositor voltará atrás já que, segundo o empresário do próprio, ele aceitou o pedido público de desculpas do ator. A lógica do mercado é infalível, queridos, e até mesmo Chico Buarque está preso a estes mecanismos.

Em seu comunicado, Claudio Botelho admite que errou no caco, que foi rude em seus questionamentos e pede perdão, quase de joelhos, ao querido Francisco. Diz, ainda, que vai investigar o vazamento do áudio e que resolverá a questão judicialmente, como lhe é de direito.

O artista que se julga um rei, um intocável, faz do entretenimento uma espécie de catecismo em volta de sua imagem. É a colonização da alma da plateia, que esses alumiados atores veem enquanto numerosos macacos a lhe aplaudirem o ego.

Pois, voltando aos companheiros da bandeira negra, vos digo que é preciso cortar a cabeça de todos os reis, de todas as mães, de todos os pais, a fim de degolar toda ordem e toda soberba. Se por um acaso encontrarem pelas ruas algum amor decapitado, não se assustem, é apenas uma nova forma de transformar o mundo: criar uma nova mentalidade para quem amamos.

Que rolem as cabeças pelo chão de Pindorama!

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Tags: Botelho & MoellerChico BuarqueClaudio BotelhoTeatroTodos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos

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