Há espetáculos que aproximam. Outros afastam. Dias Felizes, de Samuel Beckett, pertence ao segundo grupo. Apresentada em duas sessões no Guairinha, dentro da Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba, a montagem provocou reações distintas. Na saída, não eram poucos os que a definiam como lenta, pesada deprimente ou difícil. Quase todos, porém, reconheciam a força da atuação de Patrícia Selonk.
Não chega a ser surpresa. Beckett nunca foi um autor de fácil adesão. Desde Esperando Godot e Fim de Partida, seu teatro se constrói menos pela ação, pela narrativa, do que pela condição humana exposta em cena. Dias Felizes, escrita em 1961, aprofunda essa proposta.
A peça nasceu de uma pergunta do próprio Beckett: seria possível escrever algo mais luminoso? O resultado foi uma obra que o autor classificou como uma comédia trágica. Winnie, a protagonista, fala sem parar sobre pequenos gestos cotidianos enquanto está literalmente presa ao chão. Primeiro até a cintura. Depois, apenas com a cabeça visível.
Winnie, a protagonista, fala sem parar sobre pequenos gestos cotidianos enquanto está literalmente presa ao chão. Primeiro até a cintura. Depois, apenas com a cabeça visível.
Na encenação da Cia. Armazém, dirigida por Paulo de Moraes, essa imagem organiza o espetáculo. O cenário cria um espaço árido, sem referências precisas de tempo. A tradução de Jopa Moraes introduz pequenas atualizações que aproximam o texto de preocupações atuais, como o risco ambiental, sem alterar a estrutura da obra.
Os elementos visuais — cenário, luz, som e figurino — trabalham nessa mesma direção: criar um espaço suspenso, que pode ser passado, presente ou futuro.
No centro está Patrícia Selonk. Sua Winnie sustenta o espetáculo. O trabalho se constrói no ritmo da fala, na repetição dos gestos e na relação com os objetos retirados da bolsa. A personagem se prepara para um dia que não começa e organiza uma rotina que não leva a lugar algum. A esperança aparece mais como hábito do que como convicção.
Willie (Jopa Moraes), o marido, aparece pouco. Rasteja, lê o jornal, responde com poucas palavras. Mais do que um diálogo, o que existe é uma tentativa de comunicação.
Talvez seja justamente isso que tenha causado estranhamento em parte do público. Beckett não oferece progressão dramática convencional. O que está em cena é permanência.
Dias Felizes não é um espetáculo que busca agradar. É um espetáculo que pede atenção. E, como sempre acontece com Beckett, isso nunca é para todos.
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