Há uma linha tênue entre lembrar e reescrever — e Mulher em Fuga, apresentada no Guairinha no último fim de semana do Festival de Curitiba, caminha exatamente sobre ela. O espetáculo parte do material autobiográfico de Édouard Louis, autor francês sobre quem já escrevi aqui na Escotilha como uma das vozes mais incisivas de uma literatura que transforma vivência em crítica social, mas opta por um deslocamento sutil: em vez do enfrentamento direto que marca os livros do escritor, o que se vê em cena é uma elaboração mais filtrada, menos cortante, por vezes até mais amorosa.
Essa escolha se materializa, sobretudo, na construção do filho. Se, na obra de Louis, há uma tensão constante, quase irreconciliável, entre ele e a figura materna, aqui o personagem surge atenuado. Não se trata de apagar o conflito, mas de modulá-lo. Há um olhar que ainda carrega dor, mas também compreensão — como se o tempo tivesse operado uma espécie de decantação afetiva.
Isso altera o eixo do espetáculo. A história dessa mulher pobre, atravessada por relações violentas e por uma vida marcada pela precariedade, e de seu filho gay, que encontra na linguagem um caminho de saída, deixa de ser apenas denúncia para se tornar também gesto de reconciliação possível. Não é um diário encenado, mas uma leitura — uma tentativa de organizar o vivido sem ceder ao ressentimento.
Sob direção de Inez Viana e dramaturgia de Pedro Kosovski, a encenação aposta na contenção. E é nesse registro que as atuações encontram força. Malu Galli constrói sua Monique longe de qualquer caricatura de vítima. Há firmeza em sua presença, mas também uma opacidade que resiste à simplificação. Sua personagem parece se constituir aos poucos, como se cada gesto retirasse uma camada de violência acumulada — os casamentos fracassados, a pobreza estrutural, o peso de uma vida que nunca ofereceu escolha.
Malu Galli constrói sua Monique longe de qualquer caricatura de vítima. Há firmeza em sua presença, mas também uma opacidade que resiste à simplificação.
Já Tiago Martelli, que também idealiza o projeto, assume o filho com uma delicadeza que contrasta com a dureza do material de origem. Sua atuação, algo oscilante, evita o confronto explícito. Em vez disso, há uma espécie de suspensão: ele observa, revisita, reorganiza. E, nesse processo, constrói um personagem que, mais do que acusar, tenta compreender.
O espaço doméstico, então, deixa de ser apenas cenário e se torna campo simbólico. Não são apenas mãe e filho em cena, mas duas formas de sobrevivência diante de um mesmo sistema — uma mulher e um homem gay tentando, cada um à sua maneira, escapar de estruturas que os comprimem.
A encenação acompanha essa lógica de depuração. A cenografia de Dina Salem Levy evita o realismo e sugere um espaço de memória, enquanto a luz de Aline Santini recorta os corpos e cria zonas de silêncio, como se iluminasse aquilo que nunca pôde ser dito.
Há, no conjunto, uma escolha clara: em vez do choque, a elaboração; em vez do grito, a escuta. E é nesse deslocamento que Mulher em Fuga encontra sua singularidade. Ao suavizar o gesto de ruptura presente na obra de Édouard Louis, o espetáculo não o enfraquece — apenas o transforma. A insubordinação permanece, mas agora atravessada por um olhar que admite, ainda que com dificuldade, a possibilidade de afeto.
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