Teve um tempo em que um humor relativamente simples, que surpreendia por sua adoração pela bobagem, engajava o público em frente à televisão. Durante os quatro anos (entre 1988 e 1992) em que a TV Pirata foi ao ar na TV Globo, conseguiu emplacar vários personagens e bordões (hoje chamaríamos de memes) que colavam entre as pessoas e nos faziam rir com muito pouco.
Mas esse humor nonsense, também chamado de besteirol, perdeu força nas décadas seguintes, fazendo com que a comédia preferisse trilhar outros caminhos. Por sorte, esporadicamente surgem talentos como Tatá Werneck e Edu Sterblitch, humoristas raros que conseguem emprestar seus corpos e vozes para piadas que só funcionam quando são proferidas por eles.
O que E.T.: Edu e Tatá – o novo humorístico da Globo exibido no Multishow e disponibilizado na plataforma Globoplay – nos oferece é um encontro entre dois titãs. É justo dizer que eles não encontram pares na comédia. Ela, uma humorista de raciocínio rápido e mente afiada, que desponta justamente pela língua rápida e maliciosa (na tradição de Dercy Gonçalves); ele, um ator experiente que usa o próprio corpo para articular as piadas mais estapafúrdias possíveis, e que desliza com tranquilidade também para o drama.
Em E.T., eles se juntam como roteiristas ao também comediante Rafael Queiroga para bolar esquetes variadas, que eventualmente se repetem entre os episódios. Claro que os resultados obtidos pelos quadros são variados, até porque as propostas são díspares: alguns são nitidamente réplicas do humor rápido que circula no TikTok, com sentidos cifrados para públicos jovens, enquanto outros retomam o contato com uma tradição mais tradicional na comédia brasileira.
O que realmente merece atenção é o fenômeno que irrompe quando duas feras em sua área se encontram e se entregam para aquilo que fazem de melhor: a bobagem.
São nesses últimos que a dupla brilha mais. Nos esquetes mais engraçados, eles replicam casais que brigam por motivos bizarros. Em um deles, uma mulher acusa o namorado de lhe oferecer um relacionamento tóxico que a faz sofrer, ter dores, e até sangramentos, para por fim concluir que se trata de dengue hemorrágica. Nessa comédia de situação baseada no nonsense, E.T. reverbera os melhores momentos de programas como Os Normais e o clássico canadense Kids In The Hall, referência a muitos shows brasileiros.
Há também as paródias e os trocadilhos. Enquanto alguns quadros deste estilo patinam, outros arrancam risadas, como quando a novelinha infantil Carrossel se torna “Carrossela”, tornando-se uma competição culinária entre crianças ao estilo MasterChef com a participação bem sacada da ex-jurada do programa, Paola Carossella, que mergulha com gosto na brincadeira.
O humor também transborda em outros momentos que bebem na nostalgia. Em um deles, Edu e Tatá fazem um casal cuja esposa tem um problema: ela é viciada no SBT. Quando recebem visitas, o marido reclama sobre este “problema” da cônjuge, que só interage com os outros a partir de bordões dos programas da emissora de Silvio Santos.
Outra boa sacada é o resgate de momentos conhecidos do passado dos comediantes, especialmente de Eduardo Sterblitch. Aqui, ele traz de volta personagens de sucesso do Pânico na TV, como o Freddie Mercury Prateado e o Poderoso Castiga. Há aqui um leve toque subversivo ao trazer personagens de emissoras menores para a emissora global, o que, em outros momentos, seria uma espécie de tabu. Sterblitch ainda se sobressai nos comerciais fictícios que cria (quem não lembra do salão da Cabelereira Leila?)
E.T.: Edu e Tatá, pode-se dizer, não vai ter graça para todos. Certos episódios terão apelo variado e circularão melhor na internet que na TV (a imitação de Tatá de Sandra Annenberg no Globo Repórter é um dos casos). Mas isso talvez seja o que menos importa aqui.
O que realmente merece atenção é o fenômeno que irrompe quando duas feras em sua área se encontram e se entregam para aquilo que fazem de melhor: a bobagem. Sem amarras, capazes de performar a partir dos chistes mais infames possíveis, o programa prova que é possível fazer rir com muito pouco. Basta ter na emissora talentos do naipe de Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch.
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