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A loucura: uma obra

porFrancisco Mallmann
1 de dezembro de 2015
em Teatro
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A natureza humana se mostra no tempo e o ser humano é uma mostra da natureza. O inconsciente só é conhecido com ficções e mitos. O que se chama “tempo” é o tempo do nosso relacionamento afetivo com as coisas. Os afetos e as representações são datados. O ser humano se concretiza na relação com o outro. Espaço e tempo são formas necessárias aos nossos atos psíquicos. Todos os distúrbios são problemas do tempo. É o que dizem.

Artista de Fuga, dirigido por Marcos Damaceno, parece mobilizar algumas dessas ideias cuja origem é a psicanálise (as frases-conceitos acima são ínfimos recortes de Freud e Winnicott, especialmente) – a criação de um espaço em que a psique se une a um caráter específico da figura do artista. É como se houvesse uma conexão íntima entre o estado emocional e a “condição” de artista. O referencial, à distância, parece ser o amplo conjunto de relações existentes entre genialidade e loucura que permeiam a História da Arte e sua estetização. O constante exercício de criar auras ao redor de todas as coisas. “Um homem com uma dor é muito mais elegante”, disse Leminski. Um artista atormentado é mais legitimo, poderia também ter dito, nessa mesma lógica.

Não se trata apenas de um artista em crise criativa-existencial (é difícil dissociar, pensando que arte é vida e vida é arte), é também um choque entre a própria ideia de artista e a forma com que a vida é possível frente aos padrões idealizados. A peça apresenta a ideia de procrastinação como sendo um efeito do perfeccionismo – o medo de não criar algo magistral faz com que a pessoa adie determinada ação ou atividade.

A peça Artista de Fuga propõe uma constante desestabilização dessas noções pré-concebidas entre aquilo que é artista e aquilo que é louco.

A fuga, nesse sentido, é, obviamente, um afastar-se do mundo e do ambiente circundante, mas é também, na peça em questão, uma corrida cuja direção aponta para o interior do ser, sem que isso seja autoconhecimento ou autoesclarecimento. Esse movimento é refletido no espaço cênico, que é restrito e funciona quase como a materialização do interior do artista – a exteriorização de um lugar escuro, sufocante, caótico, em que rabiscos e registros pictóricos constituem a visualidade.

A dualidade entre interior e exterior parece ser um tema importante nas questões sugeridas pela montagem, que é uma adaptação do texto Como Me Tornei um Artista de Fuga, de Guto Gevaerd, que assina também a trilha composta da peça. A sonoridade, as vozes dos atores e a maneira com que a palavra é pensada/exercitada/executada enfatiza as distâncias entre um ser “ator-mentado” e o restante do mundo – fazendo lembrar velhas definições que tomam o “louco” como aquele que não tem o domínio da palavra, que, necessariamente, precisa ser elencada e proferida de maneira “normal”. Michel Foucault, em diversos materiais, aborda essa questão entre discurso e loucura.

Outra temática interessante para se pensar a peça, também presente na obra de Foucault, é a relação entre “loucura” e “obra”, assim apresentada por Peter Pal Pelbart, em uma obra intitulada Da Clausura do Fora ao Fora da Clausura:

“‘A loucura é ruptura absoluta de obra’, diz Michel Foucault. À primeira vista tudo parece claro. Por obra entendemos trabalho, construção, consistência, produto, comunicação, estrutura — tudo aquilo de que são incapazes nossos loucos, impotentes e desmilinguidos.

Obra é materialização de trabalho, forma, inserção do homem no espaço e inauguração de história. Os que não produzem, não formam, não comunicam, não têm lugar — a esses nós chamamos de loucos.

A conclusão se impõe: ausência da obra vale como critério-limite para discriminar o produtor do improdutivo, o estruturado do desmanchado, o existente do desistente, o são do insensato”

O que a peça Artista de Fuga, que tem no elenco Rosana Stavis, Paulo Alves e Eliane Campelli, articula, de algum modo, é a tênue linha existente entre o artista, aquele cuja obra é pretendida/evocada, e o louco. Propõe, por isso, uma constante desestabilização dessas noções pré-concebidas entre aquilo que é artista e aquilo que é louco sem, no entanto, se tornar moralista ou apontar para uma resposta única e correta. Trata-se de uma maneira de personificar e corporificar as discussões existentes no entrecruzamento das duas figuras, tornando mais complexas as questões ao invés de explana-las com finalidade esclarecedora — tal qual a vida, tal qual o humano.

Para somar às questões, sugiro este vídeo, de Aderbal Freire-Filho.

 

SERVIÇO

Artista de Fuga
Quando: 26/11 a 20/12. Quinta a sábado, às 21h; e domingo, às 19h.
Onde: Casa do Damaceno –  Rua Treze de Maio, 991;
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada).

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Tags: Casa DamacenoCrítica TeatralGuto GevaerdMarcos DamacenoTeatro

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