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Wong Kar-Wai explora a intertextualidade no magistral ‘2046 – Os Segredos do Amor’

Em '2046 – Os Segredos do Amor', o cineasta chinês Wong Kar-Wai reencontra seu protagonista transfigurado, desiludido e entregue à lascívia.

porPaulo Camargo
11 de outubro de 2018
em Cinema
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'2046 – Os Segredos do Amor', de Wong Kar-Wai

Tony Leung reencontra seu personagem de 'Amor à Flor da Pele'. Imagem: Divulgação.

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Se em Amor à Flor da Pele, o diretor chinês Wong Kar-Wai resvala no sublime para falar de uma paixão entre um homem e uma mulher, ambos casados com outras pessoas, moradores de uma mesma pensão na Hong Kong dos anos 60, em 2046 – Os Segredos do Amor o cineasta reencontra um dos protagonistas em um momento muito diferente de sua vida.

Chow (Tony Leung, grande astro do cinema chinês) ressurge desiludido, e agora entregue à lascívia. Trocou o amor pelo sexo sem compromissos. O sujeito honrado, retraído e algo solene de Amor à Flor da Pele transfigurou-se. Sem ter concretizado a paixão nutrida por olhares e toques fortuitos com as ex-amantes, ele agora encarna uma espécie de sátiro, revezando parceiras em sua cama como quem troca de camisas no verão. Tudo para escapar da possibilidade de se envolver emocionalmente.

2046, cuja narrativa é mais fragmentada do que seu antecessor, mostra quatro relacionamentos fugazes do jornalista, que agora dedica-se a escrever um romance, cujo título coincide com o do filme. E essa trama, ficcional, também integra a narrativa do longa de Wong Kar-Wai.

Nessa história dentro da história, 2046 é uma instância espaço-temporal e de espírito à qual as pessoas vão para resgatar memórias perdidas.

Nessa história dentro da história, 2046 é uma instância espaço-temporal e de espírito à qual as pessoas vão para resgatar memórias perdidas. Um lugar onde nada se altera. Também é o número do quarto de hotel onde Chow encontrava sua vizinha, vivida por Maggie Cheung, em Amor à Flor da Pele. Mas o cineasta chinês também empresta a esse detalhe de seu belo filme um significado metafórico e político: 2046 é o último ano do período estipulado pela China a Hong Kong para que tudo na ex-colônia britânica se readeque ao que Pequim estabelece com norma.

Há quem considere o cinema de Wong Kar-Wai excessivamente estetizado, chamando-o de “perfumaria”. De fato, ele é um desses autores com os quais o espectador tem de manter uma espécie de vínculo sensorial. Se não houver uma entrega às imagens, aos jogos narrativos, à poesia que costura questões relativas ao tempo e à memória, mas também aos sentidos, elementos onipresentes no cinema do diretor, seus filmes se tornam herméticos e, aparentemente, maneiristas demais. Aos que aceitam o desafio, está reservada uma experiência estética ímpar.

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Tags: 2046 – Os Segredos do AmorAmor à Flor da PeleCrítica CinematográficaHong KongintertextualidadeLiteraturaResenhaReviewTony LeungWong Kar-wai

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