No seu clássico A Insustentável Leveza do Ser, o escritor tcheco Milan Kundera escreve: “quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência absoluta de fardo faz com que o homem se torne mais leve do que o ar, que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes”.
Na lógica do pensamento humano, poucas experiências talvez sejam tão pesadas quanto a do suicídio. A ideia de alguém optar voluntariamente pelo fim da própria existência nos confronta com uma dimensão sombria da condição humana, ainda tão distante de nossa compreensão. Como imaginar, então, um narrativa capaz de abordar o suicídio com leveza e poesia, sem deixar de celebrar a vida?
Para os autores Duncan MacMillan e Joe Dohahue, que assinam o texto de Todas as Coisas Maravilhosas, uma resposta seria: pelos olhos de uma criança. O espetáculo, que é estrelado por Kiko Mascarenhas e dirigido por Fernando Philbert, foi vencedor do prêmio APCA em 2024. Um reconhecimento justo a esta peça que nos apresenta a um menino que convive com as tentativas recorrentes de suicídio da mãe. Ele não entende muito bem o que acontece, e não recebe explicações claras do pai, que também está imerso no próprio sofrimento.
Para lidar com este cenário nebuloso, o menino cria a própria ferramenta: vai escrever para a mãe uma lista de coisas maravilhosas da vida. Assim, expressa sua intenção de afastar a pessoa que ele mais ama do abismo que a cerca, para lembrá-la de que o verdadeiro sentido da vida não está nas coisas densas, complexas, significativas, mas justamente nas mais simples. Como tomar um sorvete, ficar acordado até a madrugada assistindo à televisão, sentir o cheirinho de um cachorro e fazer xixi em uma piscina sem ninguém saber.
A beleza da Todas as Coisas Maravilhosas, portanto, é que cada apresentação é única, uma vez que se molda às intervenções dos presentes no teatro.
A angústia – que se expressa pelo personagem, agora um adulto que revisita suas memórias de infância – compartilha o mesmo espaço que a poesia, como se ambas fossem dois lados da mesma coisa. É o sofrimento que faz com que o menino possa também desfrutar da alegria e descubra que ela está na sua frente. E, assim, estende o convite para a sua mãe e, por consequência, ao público.
Uma dramaturgia amorosa
Talvez este espetáculo – que tem uma estrutura aparentemente simples, mas requisita uma operação intrincada para poder funcionar – não resultasse tão bom se não tivesse a presença delicada e amorosa do ator Kiko Mascarenhas. Logo no início, ele convida o público a participar, mas esclarece: essa não é uma peça “interativa” tradicional, já que não pressupõe qualquer tipo de constrangimento aos presentes.
Não há por que fugir. O interesse é outro: que o público se torne uma peça fundamental a completar o jogo cênico proposto ali, no palco circular do Tucarena, em São Paulo. É Kiko que distribui os cartões que serão lidos pelos presentes sob o seu comando. Alguns ainda serão requisitados para desempenhar papéis importantes na infância do menino, como o pai, o veterinário que faz eutanásia no seu cachorro, dona Conceição, a psicológa da escola, que fala com a criança com a ajuda de uma meia, e a sua esposa Sam.
A beleza da Todas as Coisas Maravilhosas, portanto, é que cada apresentação é única, uma vez que se molda às intervenções dos presentes no teatro. Ainda que a história não se altere, cada plateia acrescenta um pouco de si, costurando com Kiko uma colcha colorida, que vai sendo completada pelos pormenores filtrados pela subjetividade de cada um.
É importante lembrar que na peça, porém, a discussão sobre saúde mental não se dá pela ótica da mãe, a pessoa vitimada pela doença, mas sim por suas reverberações na criança, que sofre de forma vicária. E talvez justamente aí esteja a sua riqueza, ao mostrar que é possível tratar desse assunto a partir de outras abordagens. Ousadamente, até provando do gosto agridoce da alegria.
SERVIÇO | Todas as Coisas Maravilhosas
Onde: Teatro Tucarena (Rua: Monte Alegre, 1024 – Entrada pela Rua Bartira – Perdizes | São Paulo/SP);
Quando: Até dia 13 de dezembro
Horários: 6ª e sábados às 20h e domingos às 18h
Quanto: R$ 60 (meia) e R$ 120 (inteira);
Classificação etária: 12 anos.
Vendas online no Sympla.
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