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‘Eu, Daniel Blake’ é necessário, provocativo, inteligente e sensível

Filme com direção de Ken Loach e roteiro de Paul Laverty, ‘Eu, Daniel Blake’ é, ao mesmo tempo, um convite à solidariedade e um grito contra a desumanização em meio à burocracia estatal.

porTiago Bubniak
17 de março de 2020
em Cinema
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Katie (Hayley Squires) e Daniel (Dave Johns): auxílio mútuo em meio ao caos. Imagem: Divulgação.

Katie (Hayley Squires) e Daniel (Dave Johns): auxílio mútuo em meio ao caos. Imagem: Divulgação.

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Se existe algo que une o carpinteiro Daniel (Dave Johns) e a mãe solteira Katie (Hayley Squires) no filme Eu, Daniel Blake (2017), esse algo é a solidariedade. Os dois estão em situação delicada e, para não sucumbir diante dos ditames de um aparato estatal que faz lembrar os absurdos de Franz Kafka, encontram forças no auxílio mútuo. Dessa forma, a produção do diretor britânico Ken Loach com roteiro de Paul Laverty é, ao mesmo tempo, um convite à solidariedade e um grito contra a desumanização em meio à burocracia e ao desrespeito do Estado.

Na trama, Daniel sofre um infarto e é impedido pelos médicos de retornar ao trabalho. Ele passa, então, a tentar conseguir o seguro-desemprego. É a partir daí que o protagonista entra em uma espécie de via-crúcis, na qual tudo o que o outro lado quer é impedir a conquista do benefício. Paralelamente, ele sofre o preconceito de ser taxado como alguém que não quer trabalhar. Nesse caminho de provações, Daniel conhece Katie e a identificação entre ambos é imediata.

É desconfortante ver a humilhação que Daniel passa por, simplesmente, buscar um direito. Ele é um excluído digital e, em determinado momento, chega a levantar o mouse até a tela do computador quando é orientado a clicar em cima de algo.

A trajetória percorrida pelo personagem principal e sua coadjuvante é bastante chamativa, ainda que os idealizadores apostem na fórmula “história árida = filme seco”. Praticamente inexiste trilha sonora e os diálogos são muito bem aproveitados. Não raras vezes, as transições de cenas são feitas com fade-out, aquele recurso técnico que investe no escurecimento gradual da tela até o completo desaparecimento da imagem.

É desconfortante ver a humilhação que Daniel passa por, simplesmente, buscar um direito. Ele é um excluído digital e, em determinado momento, chega a levantar o mouse até a tela do computador quando é orientado a clicar em cima de algo. Para alguém com conhecimentos mínimos na área da informática, ser obrigado a participar de um workshop no qual se fala de videocurrículo a ser enviado pelo smartphone é mais que uma afronta. E esse é apenas um dos “capítulos” de sua saga revoltante.

Eu, Daniel Blake, enfim, é um filme necessário, provocativo, inteligente e sensível, no qual um simples azulejo do banheiro que cai e vira cacos é uma metáfora da vida que desaba e mergulha na tristeza e no caos.

Recentemente, a dupla Ken Loach e Paul Laverty lançou Você Não Estava Aqui, um filme impactante sobre vidas que desabam. Mais especificamente, vidas que são fortemente marcadas pelo trabalho informal, pela terceirização e pela meritocracia. Com o grito contra a burocracia estatal em Eu, Daniel Blake e a exposição da “uberização” das relações de trabalho em Você Não Estava Aqui, Loach e Laverty reforçam seu destaque no meio cinematográfico como dois provocadores de profundas reflexões sobre questões sociais.

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Tags: CinemaCríticaCrítica CinematográficaCrítica de CinemaEu Daniel BlakeKen LoachPaul LavertyResenhaReviewVocê Não Estava Aqui

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