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’24/7′ – O sono e a última barreira do capitalismo

Jonathan Crary aborda o contemporâneo à luz do capitalismo e do sono nosso de cada dia em '24/7 - Capitalismo tardio e os fins do sono', lançado pela Ubu.

porPetê Rissatti
18 de maio de 2017
em Literatura
A A
'24/7' – O sono e a última barreira do capitalismo

Imagem: Reprodução.

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Ao terminar de ler 24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono, de Jonathan Crary, em tradução excelente de Joaquim Toledo Jr. para a Ubu Editora (herança da finada Cosac Naify), passei muito tempo desconfiado do meu celular e também de vários eletrônicos que de uma maneira ou outra influenciam nossa vida em muitos níveis. E este longo ensaio de Crary não se reduz a mostrar como esse tal capitalismo tardio – e a tecnologia que ele cria – afeta nosso dia a dia quando estamos acordados, mas também explora suas tentativas de minar o que ainda temos de unicamente nosso: o sono.

Sono é sinônimo de luta

No início, claro, pensei estar diante de um título alarmista. Contudo, alguns amigos que me recomendaram o livro disseram para eu ir até o final. E da minha primeira impressão cheguei a um ponto em que aquele livro, que propunha o sono como último bastião anticapitalista, me deixava insone. Realmente preocupado. Pensei nas inúmeras possibilidades de deterioração do ser humano frente à privação dessa última barreira ainda não ultrapassada pelo voraz capitalismo. A de se desligar do mundo, das compras, do bombardeio de informação, da enxurrada de estímulos e incitações de quem vive na Idade Mídia.

Não nos damos conta, neste mundo em marcha insana, do quanto já nos tornamos reféns da tecnologia. Mesmo com todas as benesses que ela nos traz, ao mesmo tempo embute um prejuízo a diversas instâncias (inclusive de sanidade) sociais, culturais e mesmo individuais.

E da minha primeira impressão cheguei a um ponto em que aquele livro, que propunha o sono como último bastião anticapitalista, me deixava insone.

Os estudos que Crary traz à tona para corroborar sua tese e as conclusões às quais chegamos e que refletem inclusive nossas palavras (“Quando eu morrer eu durmo” ou “Fulano só sabe dormir”) são assustadores. Mostram como estamos predispostos a considerar o sono, o descanso e o ócio um problema, um malefício à sociedade, um “pecado”. Mas alguns livros que pipocam no exterior há algum tempo já mostram que começa a surgir uma tendência contrária, ao menos nos livros de não-ficção. E talvez na maneira de pensar o descanso. Depois da onda da organização e do pensamento rápido x pensamento lento, o sono e o descanso começam a virar assunto.

Pensando o ócio em outros termos

Um exemplo é Die Kunst des Liegens (A arte de deitar), do alemão Bernd Brunner (Galiani Berlin, 2013, sem tradução no Brasil), livro que mostra a importância do sono como reparador físico e psíquico. Bernd também insinua, de forma muito leve, que o “deitar” seria uma maneira de rebeldia contra uma sociedade que supervaloriza a atividade, a ação, o movimento. Além disso, o autor escreveu um anedotário incrível sobre o descansar, mostrando como o conforto foi pesquisado a fundo por inúmeros cientistas importantes, como o sono provoca até hoje o imaginário de escritores e dá vida a diversas superstições e como várias engenhocas foram criadas para melhorar o sono e o ócio.

Profundo, mas não hermético

O livro de Crary trata especificamente dos últimos 50 anos de revolução socioeconômica mundial, mas retorna alguns séculos para explicar como a industrialização já plantava as bases para o que enxergamos hoje como normal. Lançando mão de diversos filósofos, sociólogos e estudiosos clássicos e contemporâneos, além de obras de arte como cinema, pintura e literatura, Crary tece uma intrincada rede de provocações e conclusões que pode ser definida como perturbadora. Com argumentos sólidos e longe de serem simplistas, obriga o leitor a olhar ao redor e perceber como vários pontos daqueles ensaios refletem a contemporaneidade com uma agudeza incômoda e uma fluidez rara em textos dessa natureza.

A impressão que dá é de que o autor extraiu quase todos os temas abordados de uma análise minuciosa não apenas da sociedade, mas também de vários episódios do seriado Black Mirror e de outras obras distópicas (meu exemplar tem várias anotações como “BM: San Junípero”, “1984: o observador passa a ser observado” ou “BM: Episódio das Baratas”).

É um alerta não apenas para nós, mas para muitas gerações que enfrentarão os prognósticos de Crary nas próximas décadas.

Este livro poderia ter alguma atualização ou um livro-irmão que fosse complementar ao primeiro e trouxesse uma análise da degeneração político-social pela qual passamos. Seria uma dupla realmente bombástica (risos nervosos).

***

É possível ter acesso aos primeiros capítulos do livro, disponíveis no site da editora (clique aqui).

O blog do Instituto Moreira Sales tem a seção “Quatro Perguntas“ com o autor (clique aqui).

24/7 – O CAPITALISMO TARDIO E OS FINS DO SONO | Jonathan Crary

Editora: Ubu;
Tradução: Joaquim Toledo Jr.;
Tamanho: 144 págs.;
Lançamento: Outubro, 2016.

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Tags: Bernd BrunnerBlack MirrorcapitalismoContemporâneoCrítica LiteráriaDistopiaIndustrializaçãoJonathan CraryLiteraturaócioRealidadeResenhaReviewsociedadesonotecnologiaUbuUbu Editora

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