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‘História da Chuva’, de Carlos Henrique Schroeder, narra o fracasso na vida artística

Em 'História da Chuva', Carlos Henrique Schroeder embaralha o jogo entre o real e a ficção.

porMarilia Kubota
24 de abril de 2018
em Literatura
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'História da Chuva', de Carlos Henrique Schroeder, narra o fracasso na vida artística

Imagem: Reprodução.

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História da Chuva (Record, 2015), de Carlos Henrique Schroeder, narra o fracasso na vida artística. Abriga duas histórias: a do personagem homônimo, o escritor Carlos Henrique Schroeder, e seu relacionamento com a psicótica Melissa e a de Arthur e Lauro, artistas de teatro de bonecos.

Narrativas miúdas como gotas de chuva fluem na linguagem amadurecida do escritor. Tudo começa com a morte de Arthur numa enxurrada. Nenhum jornal noticia a morte do artista, o que faz o narrador buscar os fios de uma vida dedicada ao manuseio de marionetes. Em paralelo, o narrador está prestes a se casar e recua até um relacionamento doentio anterior.

História da Chuva lança luz sobre vidas minúsculas  de personagens envolvidos em grandes projetos culturais para sobreviver, abrindo frestas para espiar um cotidiano desglamourizado.

A autoficção leva a embaralhar o real e a ficção. O autor usa seu nome real, as enchentes que devastaram Santa Catarina, em 2008, e alguns fatos de sua vida como as incursões no teatro e os abusos com drogas. Dois afluentes narrativos de um rio que transborda causam uma inundação. É intrigante a escolha por um “tema menor”. História da Chuva lança luz sobre vidas minúsculas de personagens envolvidos em grandes projetos culturais para sobreviver, abrindo frestas para espiar um cotidiano desglamourizado.

Arthur e Lauro vivem um destino escorregadio até se encontrarem. Juntos, conseguem emplacar uma companhia de teatro de bonecos e obter sucesso. O imbróglio amoroso do narrador parece ir de vento em popa até descobrir um segredo da namorada. O sucesso dos bonequeiros e do caso amoroso são uma farsa. Mais uma vez, estamos às voltas com o lado B da corrida pela fama e de histórias movidas por paixão fulminante. A fama e a paixão podem desaparecer sob temporais, sem um projeto consistente na vida.

O autor não deixa a ironia de lado ao enveredar pela autoficção: a personagem Melissa pode ser um clone de Catherine Millet, a escritora francesa que expôs sua desenfreada vida sexual ao público, em 2001, ou a garota de programa que se autodenominava Bruna Surfistinha, ambas best-sellers festejados por um público ávido por apoderar-se de “fatos verídicos”.

Em teoria, a autoficção fere a regra de “isenção” no discurso da verdade histórica, introduzindo elementos de ficção em autobiografias e biografias, permitindo alargar os conceitos de ficção e verdade histórica. Embora pareça ser a última bolacha do pacote para atrair o grande público, o gênero que entremeia ficção e verdade histórica foi usado desde o nascimento do romance moderno. Daniel Defoe, ao escrever O diário do ano da peste, publicado em 1772, viu sua novela atingir multidões, famintas por saborear “relatos da vida real”. Defoe descreve, sob forma fictícia, os efeitos da epidemia de peste bubônica que teria assolado Londres em 1665, imitando o diário de outro autor, Samuel Peppys.

A escrita de Schroeder é sofisticada e alinha-se a obras como O filho eterno, de Cristovão Tezza, Quarenta dias e Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende, O indizível sentido do amor, de Rosângela Vieira Costa, e obras de invenção como Minha mãe morrendo e O menino mentido (2008), de Valêncio Xavier, e Como eu se fiz por si mesmo, a autobiografia de Jamil Snege.

O que faz eclodir mais uma vez na atualidade a autoficção pode ter sido a superexposição trazida com as redes sociais ou a aparição de escritores em eventos literários como estrelas da  mídia. Fato é que a autobiografia é um gênero literário apropriado pela ficção há tempos, tomando exemplos, tão díspares como o americano Pergunte ao pó, de John Fante, e até o mítico A teus pés, da poeta Ana Cristina César, livro no qual a autora resgata registros de seu diário. Nada de novo no universo literário.

Nascido em Trombudo Central, município localizado no Vale do Itajaí, Carlos Henrique Schroeder tem despontado como um dos grandes nomes da literatura catarinense atual. Editor e realizador do “Festival Nacional do Conto”, em Jaraguá do Sul, cidade onde mora, é autor de A ilha navegante: contos (2003), O Publicitário do Diabo (2008), A Rosa Verde (2005), Ensaio do Vazio (2006) e As Certezas e as Palavras (Prêmio Clarice Lispector 2010) e As fantasias eletivas (2014).

HISTÓRIA DA CHUVA | Carlos Henrique Schroeder

Editora: Record;
Tamanho: 160 págs.;
Lançamento: Setembro, 2015.

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Tags: autoficçãoBook ReviewCarlos Henrique SchroederCrítica LiteráriaEditora RecordHistória da chuvaLiteraturaLiteratura BrasileiraResenhaReview

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