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A vida intensa de uma obra dedicada à morte

porBruno Zambelli
27 de agosto de 2015
em Teatro
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Sesc Consolação apresenta: Uma obra viva sobre a morte de todos nós. O Sesc é desses lugares preciosos que fazemos questão de louvar sempre que é necessário. Um espaço tão raro que, por conta dessa particularidade, nos é tão caro. Por isso, é preciso que sempre nos deixemos levar pela emoção para exaltar a beleza e o papel que a existência desse front nos proporciona. Digo isso, evidentemente, tomado pela sensação de euforia e êxtase que me assombra em ver a possibilidade de conhecimento  que um espaço como esse torna possível.

Escrevo essas linhas tomado pelo delírio da possibilidade. É possível, senhores, sonhar através da curadoria do Sesc, que nos presenteia com a belíssima e necessária exposição: Máquina Tadeusz Kantor.

Aos desavisados, é preciso esclarecer que o teatrólogo polonês, apesar de ser bem mais que um homem de teatro, é desses seres que nos encantam ao primeiro olhar.

Sempre me senti açoitado pelo chicote firme de suas indagações, e sempre me senti realizado ao encontrar em suas criações a possibilidade para desbravar os homens. A proximidade do centenário de um herói destrói algumas certezas, mas, acima de tudo, reconstrói em nós a crença no amanhã. Tadeusz me ensinou a acreditar no mundo, mesmo sem ter a certeza da felicidade, e me legou a possibilidade do encanto, mesmo sabendo que é impossível não se dilacerar diante dessa vida bandida que batizamos de rotina.

Diante desses motivos ordinários, ou melhor amorosos, é preciso abrir espaço nessa coluna extraordinária para exaltar a iniciativa do grupo Sesc em trazer para o Brasil a genialidade e a indigestão do mestre polonês. Falar da vida e obra de Kantor é desnudar nossos mais incompreensíveis fantasmas, aqueles vultos serenos que nos levam à morte. A face que nos desnuda é a face do desespero, da angústia. Tadeusz era realmente um gênio que nos dinamitava a cuca!

“Falar da vida e obra de Kantor é desnudar nossos mais incompreensíveis fantasmas, aqueles vultos serenos que nos levam à morte.”

A exposição é um apanhado de teatro, happening, performance e pintura. Segundo os próprios organizadores: “abarca a extensa trajetória do multiartista polonês, apresentando todas as técnicas e linguagens representativas do pensamento estético desse que é reconhecido entre os mais importantes artistas do século 20”.

A curadoria parte de sete manifestos de Tadeusz Kantor para apresentar suas obras, além de documentários e fotos, através da realização de debates e performances, buscando pensar e proporcionar ao público uma experiência única para cada visitante, uma aproximação com o pensamento do criador.

Em quase dois mil metros quadrados, a exposição conta com mais de 100 objetos, vídeos e cartazes que ocupam a área de convivência do Sesc Consolação, além é claro de uma área de convivência que contempla dois andares do ginásio vermelho no segundo andar do prédio.

A curadoria fica por conta do polonês Jaroslaw Suchan, historiador da arte, e dos brasileiros Ricardo Muniz e Sebastião Milaré. A maioria das obras são da coleção Cricoteka, em Cracóvia, além de museus espalhados pelo mundo e de coleções particulares.

Kantor reconheceu na vida a presença da morte. Isso não é nenhuma novidade vindo de um artista que passou por duas guerras e teve o pai morto pelo horror do nazismo, sobreviveu aos excessos e absurdos do regime comunista e presenciou os horrores que a realidade pode causar no homem. A questão da máquina, segundo os curadores, vem do fato de que é preciso reconhecer o legado do artista enquanto algo absoluto, em pleno funcionamento. O plano curatorial invoca essa abordagem para demonstrar que é possível transitar pelo legado de Kantor através dele e, da mesma maneira, ser atravessado por ele. Assim, somos “penetrados” por toda a beleza absurda de suas criações, a fim de redescobrir nossa própria existência.

Precisamos nos colocar diante da morte, seja para lembrar de nossa trajetória incompleta diante do mundo – sim senhores, nunca conseguiremos realizar aquilo que desejamos – ou simplesmente para nos lembrar do quão insignificantes e frágeis somos. Revisitar a obra viva de Tadeusz Kantor é traçar uma perigosa e necessária relação com a morte, e é essa relação que nos mantém vivos a espera de segundos que podem justificar toda uma existência. Apreciar o vôo solitário desse gênio polonês é apreciar aquilo que a vida guarda de mais misterioso: a fragilidade de uma vida, mesmo que essa seja infinita.

A criação nos permite flertar com a eternidade, mesmo diante de uma existência tão curta e sem sentido. Explorar e vivenciar o trabalho de Kantor é, também, explorar e jogar com uma vida que não tira folga, já que o síndico de toda existência é a possibilidade da morte.

Que sejamos, pois, infinitos enquanto o tempo permitir!

Tags: SescSesc consolaçãoTadeusz KantorTeatroTeatro da morte

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