Falecida nos últimos dias de 2025, aos 91 anos, a estrela do cinema francês Brigitte Bardot desafiou os obituaristas. Havia a necessidade de decidir como retratá-la: como a musa absoluta dos anos 1960, a mulher belíssima que enfeitiçou plateias do mundo todo e que se afastou da fama para cuidar dos animais, ou como a personalidade francesa que, nas últimas décadas, foi processada por racismo e revelou alguma simpatia pelos líderes de extrema-direita?
Bardot, documentário de Alain Berliner (diretor do belíssimo Minha Vida em Cor-de-Rosa) e Elora Thevenet, opta pela condescendência. O filme, que fez parte da programação da 31ª edição do É Tudo Verdade, acaba por reduzir a estrela às suas facetas mais admiráveis. Também pudera: conforme esclarecido nos letreiros iniciais, o longa contou com a participação da própria Brigitte (ela aparece apenas de costas, e textos seus são lidos por atrizes) e com o apoio da Fondation Brigitte Bardot.
Contudo, mesmo com seu teor descaradamente chapa-branca, o filme presta algum serviço às novas gerações ao relembrar a contribuição de Bardot à cultura e, sobretudo, aos direitos das mulheres. Ao se posicionar de forma transgressiva nos anos 1960, assumindo que era infiel aos homens e que não queria ficar para sempre com o mesmo marido, ela provocou paixões e iras, mas também abriu caminho para que muitas mulheres pudessem buscar a própria liberdade.
Um vulcão chamada Brigitte Bardot
O filme de Alain Berliner e Elora Thevenet sustenta-se em um grande acervo das imagens desta musa, que cresceu em uma família muito rígida e que sempre foi tratada como a feia da casa (sua irmã, na verdade, seria a mais bonita). Há também entrevistas com jornalistas e celebridades (entre eles, pessoas como Naomi Campbell, cuja importância para falar de Bardot nunca se esclarece). Mas o fio condutor, na verdade, é a própria narrativa de Brigitte.
Quando tinha 90 anos (um antes de sua morte, portanto), Bardot abriu sua propriedade La Madrague, em Saint-Tropez, para Berliner e Thevenet, para que pudessem ouvi-la e filmá-la ao lado dos tantos animais que protege (ela aparece apenas de costas). A grande joia do documentário é a reflexão sincera que a artista faz sobre a própria vida e sobre as decisões polêmicas que foi tomando ao longo de décadas – como a de se aposentar do cinema em 1973, com 39 anos, e a de não criar o único filho, Nicolas-Jacques Charrier.
O que Bardot enfatiza é que Brigitte se impôs na cultura francesa e mundial como uma força da natureza, que não escolheu exatamente ser atriz – tudo veio para ela como algo predestinado. Sua beleza hipnótica, somada à personalidade provocadora, fez com que ela sucedesse tanto no cinema (criando filmes com seu primeiro marido, Roger Vadim, que logo no início da carreira a imortalizaria em E Deus Criou a Mulher) quanto na música.
Bardot peca pelo pouco espaço reservado às facetas mais criticáveis da estrela, que, inclusive, são relativizadas.
Como uma vocação não escolhida, Bardot recebeu também o ônus de uma perseguição infinita pela imprensa, do ódio que suscitava na mesma medida que provocava o fascínio, e de uma tristeza que a levou a tentar o suicídio algumas vezes. Há muitas imagens que sugerem o pesadelo vivenciado por essa mulher que recebeu tudo, mas, em troca, não poderia jamais ter paz. Ao encontrar seu paraíso particular em Saint-Tropez, ela foi obrigada a conviver com turistas e paparazzi que a perseguiam mesmo em seu espaço mais privado.
Tudo isso é ricamente documentado e comprovado a partir de reflexões de nomes relevantes à cultura – como Marina Abramović – que discutem como Bardot se tornou maior que ela mesma, simbolizando uma ruptura possível às mulheres que não topavam se adequar ao mundo vigente.
Por outro lado, Bardot peca pelo pouco espaço reservado às facetas mais criticáveis da estrela, que, inclusive, são relativizadas. Sobre os seus processos de injúria e racismo (ela foi condenada por falas contra imigrantes e muçulmanos), Brigitte os enquadra como “equívocos”. Mas toda essa questão dura poucos minutos do documentário, que se encerra, de maneira malandra, com a atriz falando: “não me arrependo de nada”.
De fato, temos em tela um objeto riquíssimo para um filme, uma mulher de existência extraordinária e cuja trajetória e importância na cultura merecem ser sempre revisitadas. Uma pena que o trabalho de Alain Berliner e Elora Thevenet não consegue ir além do mito.
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