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‘TIP’: retrato vivo de uma atriz em chamas

Com direção de Rodrigo Portella, monólogo 'TIP (Antes que me Queimem Eu Mesma me Atiro no Fogo)' conta a história de uma atriz que trabalhou como camgirl para sobreviver.

porMaura Martins
8 de junho de 2026
em Teatro
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Milla Fernandez é autora e estrela em 'TIP
 (Antes que me Queimem Eu Mesma me Atiro no Fogo)'. Imagem: Divulgação.

Milla Fernandez é autora e estrela em 'TIP
 (Antes que me Queimem Eu Mesma me Atiro no Fogo)'. Imagem: Divulgação.

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O começo de TIP (Antes que me Queimem Eu Mesma me Atiro no Fogo) parece trivial. Uma mulher está sentada no meio do palco enquanto digita no seu notebook. Ela parece animada, divertida, e as mensagens engraçadas que escreve se projetam sobre um telão no fundo do palco. Abaixo dela, um grande X vermelho expressa uma espécie de negativa gritante.

Em tom leve, bem-humorado, vamos aos poucos entendendo que aquela jovem atriz enfrenta imensos obstáculos. Ela se preparou desde cedo para seguir a sua vocação artística. Fez faculdade, cursos, estudou canto, dança, saxofone – fez tudo o que estava previsto no script para ter sucesso na profissão escolhida. Mesmo tendo um pai famoso, ela quis trilhar o caminho mais ético: vencer pelos próprios méritos, e não por indicações.

Mas mesmo tendo feito tudo certo, nada ocorreu. Centenas de rejeições e nenhum trabalho. Para piorar as coisas, uma crise mundial se aproximava: a pandemia de COVID-19. Ela e sua família, mal preparada para lidar com as perdas financeiras, acumulavam dívidas, enquanto não conseguiam assimilar que a vida de luxos como condomínio chique e empregada doméstica de uniforme não poderia mais ser sustentada.

A solução encontrada por Milla Fernandez, autora deste monólogo, é endossada pelos pais (é filha adotiva do ator Raul Gazolla) e pelo marido (o diretor da peça, Rodrigo Portella, também à frente de Ficções, sucesso com Vera Holtz, e (Um) Ensaio sobre a Cegueira, do Grupo Galpão). Ela vai atuar como profissional do sexo, virando camgirl em sites internacionais.

Tudo resolvido, o que a atriz não esperava – e que é o que sustenta esse monólogo – é que ela sairia transformada. Milla atravessa essa jornada com novos traumas, mas também com riquezas. O que descobre é valioso, e diz respeito não apenas ao trabalho sexual, mas à própria natureza da experiência artística.

Milla Fernandez: uma atriz completa. Imagem: Divulgação.

O que deve ser dito com clareza é que estamos diante de uma potência. Milla Fernandez, com sua performance, nos convence que, de fato, o meio artístico não está preparado para reconhecer os talentos, e que muitos deles podem ter ficado pelo caminho. Os motivos, listados no texto da peça, são os mais esdrúxulos: muito bonita ou muito feia, muito gorda ou muito magra, poucos seguidores nas redes sociais.

Para poder existir, a protagonista nos conta, ela opta por migrar para o trabalho sexual na internet. Estaria se rebaixando, jogando todo o seu esforço no lixo? Queimando publicamente sua reputação? Por outro lado, o que ela recebe financeiramente por este job (que envolve muito mais a atuação, a ilusão, do que a contemplação do desejo sexual) é maior do que ganha o marido da atriz por meses de trabalho. Rodrigo Portella, vale dizer, está hoje entre os mais premiados diretores de teatro do Brasil.

Milla Fernandez, com sua performance, nos convence que, de fato, o meio artístico não está preparado para reconhecer os talentos, e que muitos deles podem ter ficado pelo caminho.

O que TIP – Antes que me Queimem Eu Mesma me Atiro no Fogo vai cruelmente nos esclarecendo é que seguimos sendo um país que não reconhece a importância dos seus artistas. O que resta àquela atriz, para poder viver dignamente, são as tips, termo em inglês para as gorjetas (que faz referência à forma com que ela é paga na plataforma e ao fato de seus clientes serem estrangeiros).

Mas talvez a principal revelação desta peça tenha a ver com as obscuridades escondidas na exploração da sexualidade. Milla vai se dando conta que os homens estão ali menos interessados em gozar, mas sim em suprir suas carências a partir da realização dos seus desejos. Um deles a paga apenas para vê-la bocejar. Muitos querem apenas ouvir que são amados – e, para isso, pagam gorjetas bem altas.

Ainda assim, as mulheres que se dedicam a isso seguem estigmatizadas. Milla Fernandez se preocupa: as décadas de dedicação às artes cênicas serão maculadas por este trabalho durante a pandemia? A resposta chega pelo livro de contos As Coisas que Perdemos no Fogo, da argentina Mariana Enriquez. É preciso jogar-se na fogueira antes de ser empurrada para ela.

Com humor cáustico e profundo, em um jogo de cena em que a atriz e autora interage ativamente com um cenário escasso, mas cheio de signos, o monólogo TIP – Antes que me Queimem Eu Mesma me Atiro no Fogo se mostra como uma pérola do teatro brasileiro. E Milla Fernandez é um grande talento que precisa ser valorizado.

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Tags: Milla FernandezRodrigo PortellaTeatroTip (Antes que me Queimem Eu Mesma me Atiro no Fogo)

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