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‘A Odisseia’ aproxima Homero de nós

Em 'A Odisseia', Christopher Nolan abandona a dimensão sobrenatural do poema de Homero para construir um épico sobre culpa, memória e guerra. O resultado impressiona pela escala e pelo elenco, mas paga um preço ao aproximar um dos grandes mitos da humanidade da sensibilidade contemporânea.

porPaulo Camargo
23 de julho de 2026
em Cinema
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Matt Damon é Ulisses em 'A Odisseia'. Imagem: Universal Pictures / Divulgação.

Matt Damon é Ulisses em 'A Odisseia'. Imagem: Universal Pictures / Divulgação.

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Poucos textos fundadores da cultura ocidental resistiram ao tempo com tanta vitalidade quanto A Odisseia. Ainda hoje, a viagem de Ulisses continua sendo uma metáfora poderosa para o desejo de retornar, reconstruir a própria identidade e sobreviver às perdas. O desafio de Christopher Nolan não era simplesmente levar esse percurso ao cinema, mas encontrar uma forma de fazê-lo dialogar com um público moldado por outras crenças e outras inquietações.

A adaptação de Nolan não tenta reproduzir a visão de mundo da Grécia arcaica. Pelo contrário, procura traduzir o poema para um público acostumado a interpretar personagens a partir de seus conflitos psicológicos. O Ulisses vivido por Matt Damon continua sendo um sobrevivente obstinado, mas já não parece definido pela astúcia que o transformou num dos grandes heróis da literatura. É, sobretudo, um homem devastado pela guerra. Essa escolha modifica profundamente o sentido da narrativa.

No poema, Atena, Poseidon e Zeus interferem continuamente na jornada do herói. Em Nolan, a presença divina torna-se quase residual. Atena, interpretada por Zendaya, surge como uma figura discreta, enquanto os demais deuses permanecem ausentes. Em seu lugar, instala-se uma leitura fundada na culpa, na memória e no trauma. A longa viagem de retorno deixa de representar apenas um percurso físico e transforma-se na tentativa de reconstruir uma identidade destruída pelo conflito.

Não surpreende. Ao longo de sua filmografia, Nolan sempre demonstrou fascínio por personagens incapazes de escapar das consequências de suas escolhas. Em A Odisseia, essa obsessão reaparece na forma de um Ulisses assombrado pelo Cavalo de Troia. O estratagema que lhe garantiu a vitória converte-se também na origem de uma culpa permanente, como se o verdadeiro inimigo não estivesse mais no mar, mas dentro dele próprio.

A leitura possui coerência dramática, embora suavize parte da ambiguidade que torna Ulisses um personagem inesgotável. Em Homero, inteligência e violência convivem sem constrangimento. O herói mente, manipula, saqueia cidades e mata quando considera necessário. Nolan prefere enxergar nele alguém mais próximo da sensibilidade contemporânea: um guerreiro traumatizado que busca redenção.

A própria violência acompanha essa transformação. Os rituais sangrentos, as vinganças e a brutalidade da Antiguidade aparecem filtrados por uma encenação muito menos perturbadora do que aquela sugerida pelo poema. A impressão é que Nolan procura preservar o encanto da aventura sem confrontar plenamente o espectador com a estranheza moral daquele universo. Isso não impede que o filme funcione com admirável eficiência.

Poucos cineastas dominam a construção de grandes espetáculos como Nolan. A narrativa mantém ritmo constante, a dimensão épica nunca sufoca os personagens e a produção impressiona pela escala. Ainda que visualmente menos inventivo do que em obras como A Origem ou Amnésia, o diretor demonstra absoluto controle da narrativa.

Também merece destaque a composição deliberadamente diversa do elenco. Em vez de perseguir uma suposta fidelidade étnica — historicamente discutível quando se fala do Mediterrâneo antigo —, Nolan aposta na universalidade do mito.

O elenco contribui decisivamente para isso. Matt Damon interpreta um Ulisses austero e silencioso, cuja exaustão parece carregar tanto peso quanto seus feitos heroicos. Anne Hathaway constrói uma Penélope de inteligência e firmeza admiráveis, recusando qualquer passividade. Tom Holland faz de Telêmaco mais do que um simples coadjuvante, transformando seu amadurecimento numa das linhas dramáticas mais interessantes do filme.

Entre as atuações, Lupita Nyong’o confere rara densidade a Helena, libertando-a da condição de mero símbolo da beleza responsável pela guerra. John Leguizamo empresta humanidade e dignidade ao leal Eumeu, enquanto Zendaya utiliza sua breve participação como Atena para sugerir uma presença serena, quase espectral, cuja autoridade dispensa grandiloquência. Samantha Morton dá à feiticeira Circe um dos mmomentos mais intensos da narrativas,

Também merece destaque a composição deliberadamente diversa do elenco. Em vez de perseguir uma suposta fidelidade étnica — historicamente discutível quando se fala do Mediterrâneo antigo —, Nolan aposta na universalidade do mito. A presença de atores de diferentes origens, assim como de um homem trans em papel de relevância, reforça a ideia de que essas histórias sobreviveram justamente porque deixaram de pertencer a um único povo para integrar o patrimônio cultural da humanidade.

Talvez aí resida a principal contradição do filme. Ao atualizar Homero para o século 21, Nolan torna A Odisseia mais imediatamente acessível. Em compensação, reduz parte da alteridade que faz do poema uma experiência tão fascinante. O épico continua grandioso, emocionante e tecnicamente impecável. Mas, ao transformar o destino em psicologia e o mito em trauma, perde um pouco do mistério que permitiu à obra atravessar quase três milênios sem jamais deixar de nos desafiar.

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Tags: A OdisseiaAnne HathawayChristopher NolanCinemaMatt Damon

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