Há uma crueldade particular na maneira como o mundo adulto insiste em determinar o que uma criança pode ou não ser. Antes mesmo que ela descubra seus desejos, suas inclinações e sua própria identidade, já existem expectativas a cumprir, comportamentos a reproduzir e fronteiras que não devem ser ultrapassadas. Em Feito Pipa, o cineasta cearense Allan Deberton transforma essa contradição em matéria de um filme luminoso, delicado e profundamente humano.
O protagonista é Gugu (Yuri Gomes), um menino de 12 anos que vive com a avó Dilma (Teca Pereira) no interior do Ceará. Apaixonado por futebol, ele também gosta de dançar, experimentar maquiagens e expressar sua personalidade sem maiores constrangimentos. Sua infância não cabe nas convenções de masculinidade que o cercam. Felizmente, encontra na avó alguém que compreende, talvez intuitivamente, que amar uma criança significa permitir que ela seja quem é.
É dessa relação que nasce a força emocional do filme. Dilma não é apenas a responsável pela criação do neto. É sua cúmplice, sua protetora e, sobretudo, a pessoa que lhe oferece a possibilidade de existir sem medo. Na convivência dos dois, Deberton constrói um pequeno universo de liberdade, em contraste com as exigências e os preconceitos que aguardam Gugu do lado de fora.
Mas esse mundo começa a dar sinais de fragilidade. A saúde da avó se deteriora, sua memória apresenta falhas e o menino percebe que a segurança de sua existência está ameaçada. A possibilidade de precisar morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), um homem incapaz de aceitar plenamente a personalidade do filho, transforma a descoberta da doença em uma experiência ainda mais dolorosa.
O que está em jogo, portanto, não é apenas o medo de perder alguém amado. É também o temor de perder o direito de ser quem se é.
Com roteiro assinado por André Araújo e Allan Deberton, Feito Pipa encontra sua dimensão mais interessante justamente na aproximação entre essas duas experiências: o amadurecimento de uma criança que começa a compreender a finitude e a descoberta de que o amor nem sempre é incondicional.
Há algo de particularmente tocante na inversão de papéis que se estabelece entre Gugu e Dilma. A avó, até então responsável por protegê-lo, passa a depender de seus cuidados. O menino, que deveria estar ocupado apenas com as pequenas descobertas da infância, precisa lidar com decisões e responsabilidades para as quais ainda não está preparado. Seu esforço para esconder a doença de Dilma é, ao mesmo tempo, um gesto de amor e uma tentativa desesperada de impedir que seu mundo desmorone.
A narrativa ganha densidade ao evitar que a questão da identidade de Gugu se transforme em um problema a ser resolvido. O menino não precisa ser corrigido, explicado ou enquadrado em categorias. É o olhar dos outros que precisa ser questionado. Nesse sentido, Feito Pipa se aproxima de uma tradição de filmes de formação nos quais a infância aparece como território de descobertas, mas também de conflitos com as normas sociais.
Deberton, que já havia demonstrado sensibilidade para personagens à margem das convenções em Pacarrete (2019), volta seu olhar para alguém cuja singularidade se manifesta de maneira espontânea. Se naquele filme uma mulher resistia à indiferença de uma comunidade incapaz de compreender seus sonhos, aqui encontramos um menino que ainda não aprendeu a renunciar aos seus.
Essa aproximação não é casual. Em ambos os casos, o cineasta se interessa por personagens que desafiam, simplesmente por existir, as expectativas daqueles que os cercam.
A interpretação de Yuri Gomes é fundamental para que essa proposta encontre sua expressão mais convincente. O jovem ator confere a Gugu uma combinação de vivacidade, determinação e vulnerabilidade. Seu personagem pode ser expansivo, engraçado e irreverente, mas também revela uma fragilidade que se torna progressivamente mais evidente. Não há nele a artificialidade que tantas vezes compromete as atuações infantis. Gugu parece existir para além da câmera.
Teca Pereira, por sua vez, empresta à avó uma presença calorosa, sem transformá-la em uma figura idealizada. Sua Dilma tem personalidade, desejos e contradições. É justamente essa humanidade que torna tão comovente o processo de perda de autonomia da personagem. A relação entre os dois intérpretes sustenta o filme e lhe confere uma autenticidade afetiva difícil de fabricar.
Lázaro Ramos assume uma função dramática distinta. Seu Batista representa um modelo de masculinidade construído sobre expectativas rígidas, incapaz de reconhecer no filho uma individualidade que não corresponda às suas próprias referências. O conflito entre pai e filho permite ao filme abordar o preconceito sem reduzir sua narrativa a uma oposição simplista entre personagens bons e maus. Há também silêncios, frustrações e uma dificuldade profunda de demonstrar afeto.
Outro aspecto importante é a maneira como Deberton trabalha a paisagem. Filmado na região de Quixadá, no sertão cearense, Feito Pipa se afasta das representações convencionais de um Nordeste associado exclusivamente à seca, à pobreza e ao sofrimento. Seu sertão é colorido, contemporâneo e cheio de vida. A paisagem não funciona apenas como cenário, mas participa da construção do universo afetivo de Gugu.
Filmado na região de Quixadá, no sertão cearense, Feito Pipa se afasta das representações convencionais de um Nordeste associado exclusivamente à seca, à pobreza e ao sofrimento. Seu sertão é colorido, contemporâneo e cheio de vida.
O açude que perde suas águas e deixa à mostra vestígios de uma cidade submersa oferece, nesse contexto, uma imagem particularmente sugestiva. Assim como as lembranças da avó começam a desaparecer, aquilo que parecia definitivamente sepultado pelo tempo volta à superfície. Memória, esquecimento e transformação atravessam a narrativa, conferindo-lhe uma dimensão que ultrapassa o drama familiar.
É possível reconhecer no filme uma inclinação ao sentimentalismo, sobretudo porque sua história se organiza em torno de uma relação afetiva destinada a despertar a empatia do espectador. Mas existe uma diferença importante entre a emoção construída a partir dos personagens e aquela imposta artificialmente pela narrativa. Em seus melhores momentos, Feito Pipa encontra a primeira.
A trajetória internacional do longa confirma sua capacidade de estabelecer uma comunicação com públicos de diferentes origens. Premiado no Festival de Berlim com o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus, o filme também conquistou quatro Kikitos no Festival de Gramado, incluindo os de melhor direção e melhor atriz para Teca Pereira.
Escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país na disputa por uma indicação ao Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional, Feito Pipa chega aos cinemas brasileiros em 5 de novembro, em um momento especialmente favorável à projeção internacional de nossa cinematografia, depois da vitória histórica de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, e da indicação de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.
Mas sua importância não deve ser medida apenas pelas possibilidades de reconhecimento na temporada de premiações. Há algo de profundamente político na decisão de colocar no centro de um filme brasileiro um menino que reivindica, sem sequer formular essa reivindicação, o direito de viver sua infância sem vergonha de si mesmo.
Em tempos nos quais a diversidade continua sendo tratada como ameaça por setores da sociedade, a história de Gugu e Dilma adquire uma ressonância que vai muito além de seus personagens. O afeto aparece como uma forma de resistência, e a liberdade, como uma condição indispensável ao amadurecimento.
No fundo, Feito Pipa fala sobre aquilo que permanece em nós depois que perdemos as pessoas que nos ensinaram a olhar para o mundo. E sobre como o amor, quando verdadeiramente generoso, não procura nos transformar em outra pessoa, mas nos oferece a coragem necessária para sermos nós mesmos.
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