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‘O Lugar’ traz um olhar frio de Annie Ernaux sobre a história do pai

No impactante 'O Lugar', a escritora francesa Annie Ernaux narra o distanciamento de seus pais por conta de sua ascensão social.

porMaura Martins
21 de dezembro de 2023
em Literatura
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Imagem: Divulgação.

Imagem: Divulgação.

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O título americano dado à obra O Lugar (Editora Fósforo, 2021; tradução de Marília Garcia), de Annie Ernaux, já entrega do que trata este pequeno romance da escritora francesa, vencedora do prêmio Nobel de Literatura em 2022. “A man’s place”: o lugar de um homem é uma apresentação justa (mas talvez excessivamente explícita) desta obra publicada originalmente em 1983.

Em O Lugar, a autora – que se tornou festejada por conta de seu estilo particular e despido de artifícios, quase “não-literário”, de fazer autoficção, ou seja, partindo dos fatos de sua vida – fala menos de um território em si, ao menos no sentido geográfico. A vida pobre na França está lá, mas Annie Ernaux está mais interessada em investigar como esse lugar determinou a pessoa que seu pai seria, ou ao menos a pessoa que poderia ser.

O livro abre justamente no seu velório, em 1967, enquanto a filha olha para o corpo do pai e revisita a sua história, buscando identificar como o contexto social e econômico impactou naquele indivíduo em particular. É claro que aqui estamos envoltos ao olhar da filha, marcado por uma certa amargura de, por conta das oportunidades que teve (fruto dos próprios sacrifícios dos pais), acabou se tornando quase como uma estranha para eles.

A dor tematizada pela escritora aqui é a dos filhos que se afastam dos progenitores, por – com muitas aspas – terem se tornado alguém melhores que eles. O pai de Ernaux é narrado enquanto um homem decente, operário de fábrica, criado nos primeiros anos do século XX em uma pequena vila. Para subir de vida, ele e sua esposa conseguem comprar um pequeno café e mercearia, mas ainda assim não conseguem prosperar, já que quase todos os clientes são igualmente pobres.

Quando ela tem a possibilidade de estudar, seu pai compreende pouco a utilidade dos livros. Ao ir embora de casa, passa a mandar cartas para casa, mas elas são meramente descritivas: “qualquer tentativa de desenvolver um estilo soaria como uma forma de mantê-los à distância”, relembra.

Para os pais, frutos desse contexto de pobreza, viver significa trabalhar e ver algo ser brotado manualmente – seja da terra, seja das grandiosas e misteriosas máquinas que surgiam. Não existe, portanto, um trabalho que seja intelectual. Ernaux escreve: “quando voltou para casa, não quis mais trabalhar com a cultura. Era assim que ele chamava o trabalho na terra. O outro sentido de cultura, o sentido espiritual, ele considerava inútil”.

A tensão da vergonha e o distanciamento de classe

A escritora francesa Annie Ernaux. Imagem: Divulgação.

A história de Annie Ernaux e seus pais parece ser marcada pela vergonha, mas também pelo paradoxo: a cada passo que dá, ela vai se tornando tanto o orgulho da família como uma ameaça a ela.

Incômodo, porém hipnotizante, O Lugar se assenta no espaço da provocação para fazer o leitor pensar sobre seus próprios privilégios, mas também sobre os preços pagos por eles. A história de Annie Ernaux e seus pais parece ser marcada pela vergonha, mas também pelo paradoxo: a cada passo que dá, ela vai se tornando tanto o orgulho da família como uma ameaça a ela.

Isto porque seu caminho “evolutivo” em prol à ascensão para a classe média vai a tornando como um símbolo de algo que os pais não são, nem nunca poderão ser. Frente à filha estudada, o menosprezo por sua própria classe vai se acentuando. Annie escreve sobre o pai: “talvez seu maior orgulho, ou até mesmo o que justificava a sua existência: que eu fizesse parte de um mundo que o desprezou”. Seu olhar sobre esta inferioridade do pai é tão distante quanto terna.

Nesta obra, uma das primeiros de sua grande bibliografia, já vemos os traços que tornariam sua escrita famosa. Todo esse processo é narrado de uma forma não emotiva, como se fosse excessivamente intelectualizada, em um tom narrativo que se repetiria posteriormente nas outras obras – como O Acontecimento (2000), no qual narra o seu aborto.

É como se ela jogasse um jogo inteligente: ao abrir mão dos recursos literários mais óbvios, e optar por uma espécie de ultra realismo, ela nos faz esquecer que a linguagem é sempre artifício e representação, fazendo-nos sentir mais próximo do real, embora isto seja sempre apenas efeito.. É claro que isso é um truque bem engendrado, mas que não tira a força desta obra breve, mas ainda assim perene.

O Lugar | Annie Ernaux

Editora: Fósforo;
Tradução: Marília Garcia;
Tamanho: 72 págs.;
Lançamento: Maio, 2021.

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Tags: Annie ErnauxautoficçãoLiteraturaLiteratura FrancesaO Lugarpremio nobel

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