Quando Joca Reiners Terron publicou A morte e o meteoro, em 2019 – o primeiro ano do trágico governo de Bolsonaro –, não imaginávamos que o livro, ao discutir o genocídio indígena, encamparia ares de literatura de antecipação, para não dizer profético. Seu romance mais recente, O riso dos ratos, publicado durante a pandemia, soa um retrato desse mesmo mundo pós-apocalíptico traçado há dois anos. Aqui, um pai, sedento de vingança, embarca em uma jornada para encontrar o homem que agrediu a sua filha.
Não é de hoje que a literatura de Terron vagueia nesses mares revoltos, entretanto, seus dois últimos livros – ambos parte do catálogo da Todavia – resumem a angústia e a raiva de uma país curvado à extrema-direita. Em O riso dos ratos, existe uma pulsão negativa que é o espelho do real, que resgata a indignação de um povo arruinado. A pai é o personagem-síntese de todo um projeto político e social fracassado. É a terra devastada. “Os mortos somos nós, eu e você. Nasceu, fodeu”, escreve, já para o final do livro. Essa frase, tão curta, concentra todo o espírito da narrativa.
O riso dos ratos não é uma obra sobre a tragédia, mas uma ode à sobrevivência.
O pai é um sobrevivente, que encontra outros pobres-diabos como ele abrigados em supermercado, o Futurama, uma espécie de refúgio dos rebeldes e o único local mencionado no livro. Terron cria um simulacro do Brasil de Bolsonaro. Nesse xadrez bizarro – em que o gerente de uma fábrica e um bispo são a representação do poder patronal e da milícia travestida de religião –, O riso dos ratos é, como A Estrada, de Cormac McCarthy, ou O último gozo do mundo, de Bernardo Carvalho, um drama pessoal, mas que escancara as feridas mais comuns. O verso de Cazuza em “Blues da piedade” – “somos todos iguais em desgraça” – nunca pareceu fazer tanto sentido e ser tão atual.
Fisicalidade
A narrativa de Terron possui uma fisicalidade que extrapola o texto. Escrito à mão, o livro é, em sua essência, uma luta contra os limites do próprio corpo do autor. Essa fisicalidade, para além da experiência criativa, é um elemento estético que reflete na Babel que compõe a história. Ao longo de O riso dos ratos, Joca explora a coloquialidade da linguagem, os dialetos e as muitas línguas dentro da língua portuguesa – ou brasileira, como chama Sérgio Rodrigues. Nesse sentido, Joca Reiners Terron compõe a verdadeira figura do apátrida: alguém que não pode pertencer nem mesmo à sua memória.
Em paralelo a tudo isso, existe uma camada imagética que percorre todo o livro. A ruína dos personagens é descrita com uma precisão fílmica. Se no início dos anos 2010 havia uma espécie de realismo frio na literatura brasileira, encapado sobretudo por Barba ensopada de sangue – quem sabe uma consequência direta dos tempos mais esperançosos que vivíamos naqueles dias –, Terron desenvolve uma prosa realista que não cabe em si, que – como A morte e o meteoro – se projeta para o futuro mais imediato.
Entretanto, O riso dos ratos não é uma obra sobre a tragédia, mas uma ode à sobrevivência. O pai é um homem kafkiano, ou talvez uma criação de Will Self, e ambos os casos é um sujeito preso na loucura e na paranoia que só existe na sua cabeça.
O RISO DOS RATOS | Joca Reiners Terron
Editora: Todavia;
Tamanho: 208 págs.;
Lançamento: Maio, 2021.