A morte de uma mãe nunca encerra apenas uma vida. Leva consigo uma língua particular, feita de gestos, silêncios, ressentimentos e formas de amar que talvez só o filho soubesse decifrar. Em Filho, livro de estreia do jornalista Thallys Braga, a perda de Luciana, aos 41 anos, abre um vazio no qual o autor mergulha sem qualquer proteção. Escrever torna-se uma maneira de procurá-la – e também de compreender o mundo que contribuiu para destruí-la.
Mas a memória, aqui, não oferece consolo. À medida que recompõe a trajetória da mãe, Braga reencontra a pobreza, a homofobia, o racismo e as distâncias sociais que marcaram sua formação em Inhoaíba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O retrato íntimo ganha, assim, uma dimensão coletiva. Luciana não morreu apenas de uma cardiopatia ou de uma sucessão de infortúnios pessoais. Morreu também sob o peso de uma estrutura que restringe horizontes, naturaliza a precariedade e transforma a sobrevivência em tarefa exaustiva.
Entre a raiva e a ternura, Filho fala do amor possível quando amar nunca foi uma experiência simples.
Publicado pela Companhia das Letras, o livro nasce de uma dor que não se acomoda ao silêncio. A morte súbita da mãe faz com que Braga retorne, pela escrita, ao lugar de onde partiu. Não para idealizá-lo, tampouco para construir uma narrativa edificante de superação, mas para compreender as marcas que esse lugar deixou em seu corpo, em sua sexualidade e na maneira como aprendeu a ocupar o mundo.
A frase mais brutal do livro talvez seja também a mais esclarecedora: “Minha mãe morreu de pobreza”. Não se trata de uma formulação retórica destinada a causar impacto. É a conclusão a que o autor chega ao examinar uma vida submetida ao endividamento, ao trabalho precário, à obesidade, à doença e à progressiva diminuição das possibilidades de escolha.

Luciana foi professora por algum tempo, trabalhou como bordadeira e terminou como empregada doméstica. Sua trajetória condensa a experiência de milhões de mulheres brasileiras para as quais o trabalho raramente representa emancipação. É, antes de tudo, um exercício de resistência: uma sucessão de jornadas, renúncias e tentativas de impedir que a vida desmorone por completo.
O filho ocupa o centro desse esforço. Único, nascido de uma gravidez inesperada, ele se transforma na principal aposta afetiva da mãe. Luciana tenta compensar, com uma presença por vezes excessiva, as ausências e instabilidades do pai. Ama o menino, mas sofre diante da homossexualidade dele. Rejeita aquilo que não compreende e que aprendeu a temer. Mais tarde, quando o filho ingressa na universidade e começa a conquistar um espaço distante daquele que parecia reservado à família, o medo e a vergonha cedem lugar ao orgulho.
Nada, porém, acontece de maneira linear. O amor entre mãe e filho é feito de aproximações e recuos, feridas e reparações incompletas. Braga não transforma Luciana em santa nem tenta julgá-la com a segurança adquirida longe de Inhoaíba. Ao contrário, preserva suas contradições. É justamente por não apagar a raiva, o preconceito e a violência que o retrato materno alcança humanidade.
Depois da morte, o autor sonha com a mãe batendo à sua porta. O que deveria ser um reencontro feliz converte-se em angústia: como acolher Luciana na vida construída depois que ela se foi? Onde colocá-la naquele outro mundo, feito de livros, viagens, apartamentos e relações sociais que provavelmente lhe pareceriam estranhas?
A pergunta atravessa todo o relato. Afinal, mudar de classe não significa apenas melhorar de vida. Significa aprender novos códigos, modificar a linguagem, vigiar os gestos e perceber, muitas vezes com desconforto, que o deslocamento não se completa. A pessoa já não pertence inteiramente ao lugar de onde saiu, mas tampouco se sente à vontade entre aqueles que nasceram no destino ao qual ela conseguiu chegar.
Braga se reconhece como um “viado pobre de Inhoaíba”. A expressão, inicialmente destinada a feri-lo, é incorporada como uma espécie de posição narrativa. Nela estão reunidas a origem geográfica, a condição de classe e a sexualidade que definiram sua experiência. Ao assumir essas palavras, o escritor não elimina a violência que carregam. Retira-as, porém, das mãos de quem as utilizava como insulto.
Braga se reconhece como um “viado pobre de Inhoaíba”. A expressão, inicialmente destinada a feri-lo, é incorporada como uma espécie de posição narrativa.
Essa apropriação está no coração do livro. Escrever sobre si não significa, para Braga, transformar a intimidade em espetáculo. Significa observar de que maneira forças históricas, sociais e políticas atravessaram sua vida. O “eu” que emerge dessas páginas não existe isoladamente. Nele se encontram o subúrbio carioca, a desigualdade brasileira, a educação como possibilidade de fuga, a homofobia doméstica e o desejo de deixar para trás um mundo ao qual, contraditoriamente, ele continuará ligado.
Por isso, o diálogo de Filho com autores como Didier Eribon e Édouard Louis parece tão natural. Em livros como Retorno a Reims e Mudar: método, os escritores franceses também examinam o preço cobrado àqueles que atravessam fronteiras de classe. Braga transporta essa reflexão para o Brasil e lhe dá uma geografia própria. Inhoaíba não é Reims, e a pobreza brasileira possui formas de violência que nenhuma teoria importada é capaz de explicar sozinha.
Se a literatura lhe ofereceu uma rota de saída, não ofereceu absolvição. O autor carrega a culpa de quem partiu e a memória daqueles que ficaram. Carrega também a consciência de que a ascensão individual não corrige a desigualdade que tornou sua partida necessária. O sucesso, nesse contexto, deixa de ser apenas uma conquista. Torna-se um lugar de observação, frequentemente incômodo, das distâncias que separam os dois mundos.
Em uma das passagens mais reveladoras, Braga participa de uma festa na casa de um homem gay e de esquerda. Quando uma das empregadas se abaixa para limpar uma bebida derramada, ele enxerga nela a própria mãe. O corpo de Luciana reaparece naquele ambiente como parte da engrenagem invisível que sustenta o conforto dos anfitriões.
A cena sintetiza a impossibilidade de se adaptar inteiramente ao novo lugar. Mesmo cercado por pessoas progressistas, o narrador percebe como os privilégios sobrevivem aos discursos. A consciência política não impede que as hierarquias se repitam dentro das casas, nem que certos corpos continuem destinados a servir enquanto outros celebram.
Essa lucidez protege Filho de duas armadilhas comuns às narrativas de mobilidade social. A primeira seria apresentar a trajetória do autor como demonstração de que o esforço individual basta para vencer a pobreza. A segunda, igualmente problemática, seria romantizar a origem popular como território de autenticidade e pureza moral.
Braga não faz nenhuma das duas coisas. Sabe que precisou partir para sobreviver, mas também reconhece que a partida exigiu rupturas profundas. Sua conquista não apaga o medo, a fome ou a vergonha. Tampouco elimina a presença da mãe, que continua a acompanhá-lo nos lugares aos quais ela nunca teve acesso.
Ao escrever sobre Luciana, Thallys Braga tenta reconstruir a história de uma mulher que a sociedade talvez registrasse apenas como mais uma morte prematura. Devolve-lhe um nome, um rosto e uma complexidade. Mas o gesto de amor não pacifica a revolta. Quanto mais compreende a mãe, mais o autor percebe a rede de abandonos que limitou suas escolhas.
Filho é, nesse sentido, um livro atravessado por uma raiva justa. Uma raiva que não exclui a delicadeza, mas impede que a ternura seja confundida com complacência. Braga ama a mãe inclusive quando recorda aquilo que nela o feriu. E a reconhece como vítima de um sistema sem retirar dela a responsabilidade por seus gestos.
Talvez seja essa tensão que torne o livro tão comovente. A escrita não ressuscita Luciana, não repara inteiramente o passado nem permite ao filho retornar ao ponto de partida. O que ela oferece é a possibilidade de olhar para trás sem baixar os olhos.
No fim, Thallys Braga parece compreender que nunca deixou verdadeiramente Inhoaíba. O bairro permanece nele como memória, ferida e medida do mundo. Da mesma forma, ele nunca deixa de ser filho. A mãe ausente continua batendo à porta da vida que construiu, pedindo para entrar. E é pela literatura que ele, finalmente, encontra um lugar para recebê-la.
FILHO | Thallys Braga
Editora: Companhia das Letras;
Tamanho: 232 págs.;
Lançamento: Agosto, 2026.
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